Primeiramente, não tenha bandidos de estimação

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Em 2007 começavam os trâmites da ação penal 470, o julgamento do Mensalão, que só seria concluído em 2012. O resumo da ópera: José Dirceu e companhia (no fim, Lula ficou de fora, segundo o STF) compraram parlamentares para aprovarem medidas no Congresso. Isso, em bom português, foi articular um golpe de Estado. Foi por isso que foram julgados e condenados. Não houve um protesto de movimentos sociais, estudantis ou sindicais pelo golpe de outrora. Ao contrário, há uma relativização absurda com os crimes daqueles que são do mesmo espectro ideológico:

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Estes, agora, subitamente, foram visitados pela fada da moralidade e começaram, do dia para a noite, a exigir retidão, honestidade e ética por parte do governo. O governo de Temer em que eles votaram nas últimas eleições. O mesmo Temer do PMDB de Renan Calheiros, Eduardo Cunha, Picciani pai e filho, Sérgio Cabral, Pezão, etc. Todos que já estavam ao lado do PT na última década. Os dois mandatos de Lula foram com a benção destes senhores. Até o afastamento de Dilma, tais nomes e, principalmente, tudo o que representava o PMDB, não trazia um rubor à face de nenhum apoiador do PT. A lua de mel entre PT e PMDB foi maravilhosa. Sem mencionar os célebres momentos de carinho com Maluf e Collor, de outros partidos, mas de índoles conhecidas por todos nós:

 

A esquerda, principalmente o PSOL, bateu em Renan Calheiros, sim. Mas apenas quando o futuro de Dilma e do PT não dependiam dele. Quando Dilma passou a depender dele, o partido e sua militância se calaram (o mesmo para o PCdoB, de Jandira Feghalli, da base do PT/PMDB nos últimos anos). A seletividade da ética encontraria o ‘socialismo e liberdade‘. Isso ficou explícito quando Renan aparentava estar ao lado de Dilma no impeachment que estava chegando ao Senado. O PSOL fez o que toda boa linha auxiliar se presta a fazer.

Por falar em seletividade e bandidos de estimação, o #ForaCunha e #FicaDilma foi algo completamente esquizofrênico, pois, como dito acima, eles foram bons companheiros, enquanto durou o amor entre PT e PMDB:

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Dilma foi afastada e o Congresso, rasgando a Constituição, dividiu o indivisível, lhe deixando com seus direitos políticos. Criou-se o #ForaTemer. Se estas mesmas pessoas tivessem gritado, esperneado, lutado pela saída do PT e do PMDB desde 2005, Temer nem teria chegado aonde está hoje. Com o #ForaTemer fomos reapresentados à revolta seletiva, aos bandidos de estimação, à leitura seletiva da Lava Jato e à audição parcial de determinadas delações premiadas. Ao invés de aproveitarem para, em tese, derrubarem o governo Temer por um Brasil limpo da velha política, querem derrubá-lo apenas como represália por ele ter sido, segundo eles, o orquestrador do “golpe” (confesso que ainda não sei se foi ele, a CIA, o PSDB ou a Globo, nesta narrativa um pouco mirabolante). Seria o primeiro golpe da História articulado pelos que, agora, se dizem vítimas. E o primeiro golpe onde o golpista mór viria a ser preso, quebrando a ridícula narrativa de “o impeachment só existiu para ‘melar a Lava Jato’ e livrar o Cunha”:

Former speaker of Brazil's Lower House of Congress, Eduardo Cunha (C), is escorted by federal police officers as he leaves the Institute of Forensic Science in Curitiba, Brazil, October 20, 2016. REUTERS/Rodolfo Buhrer
O primeiro golpista da história que vai preso

 

Falta vergonha na cara de quem deseja que este governo — sem legitimidade popular, como o de Dilma — caia, mas que só o faz para voltar com os mesmos marginais do poder de antes. Falta vergonha na cara ao não admitir que não existe corrupção menos grave, que não há justificativa para corrupção. Até banco com esta finalidade, pagar propinas, foi aberto fora do país, e não vi hashtags escandalizadas. Falta vergonha na cara destes que não conseguem admitir que a Polícia Federal e o MPF estão limpando parte da podridão da República Federativa do Brasil, e tem a audácia de tentar desmerecer este trabalho diariamente — inclusive na imprensa — só para proteger um projeto de poder. Proteger o PT. E proteger o PT é lutar com todas as forças por todo o PMDB, os grandes empreiteiros corruptos — presos pelo juiz Sérgio Moro, também depreciado por 10 dentre 10 apoiadores do PT. Ao invés de cobrarem investigações da PF e MPF nos estados onde opositores governam, continuam com a máxima de: “mas sempre se fez isso no Brasil. Por que nós?“.

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Tudo não passa de uma narrativa muito bem pensada pelos mentores petistas para proteger a ideia de que os fins (a suposta melhoria de vida do povo brasileiro) justificam os meios (corrupção). Como se — ainda que fosse verdade — melhorar a vida de alguém desse salvo conduto para roubar e deixar roubarem.

E quem segue essa narrativa? Os que ganham dinheiro com isso, direta ou indiretamente, como alguns servidores, sindicalistas, professores, artistas, etc. e os que, por inocência, não percebem que estão sendo usados para defender empreiteiros, bandidos da pior espécie, milionários que chegaram a este grau de riqueza pela habilidade em roubar o dinheiro suado de milhões de brasileiros honestos.

Os mesmos inocentes acreditam na narrativa do “golpe”. O PMDB, suposto golpista, repito, continua de mãos dadas com o PT, já que houve mais de 600 coligações entre os dois partidos nas últimas eleições municipais.

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Isso é golpe. Golpe contra os fatos. E os fatos, quando você decide adotar um bandido de estimação, pioram, se ele for do PT, porque misturam-se corrupção “padrão”, corrupção ”institucionalizada” e o crime imperdoável de pegar dinheiro do pagador de impostos brasileiro e levá-lo, com lobby de Lula e empreiteiras, à ditaduras mundo afora. Enquanto José Dirceu já estava preso, ele ganhou milhões com “consultoria”, e os paladinos atuais da moralidade estranhamente não pensavam nisso (pelo contrário: fizeram vaquinha para ajudá-lo a pagar a multa da condenação do Mensalão). Também não pensam nos médicos cubanos que são escravizados no Brasil e torturados psicologicamente com o desejo de ir embora para a América sabendo que isso seria abandonar seus parentes em Cuba. Como fomos capazes de chegar a este ponto? Não é ‘descolado’ defender indivíduos subjugados por uma ditadura só porque ela é de esquerda? Criaram, além dos bandidos de estimação, os “ditadores de estimação”.

 

Na próxima vez que você for de peito aberto escrever o seu #ForaTemer, lembre-se de você o colocou lá e durante anos manteve o PMDB no centro do poder brasileiro. Ficou em silêncio enquanto roubavam seu país. Fica em silêncio quando a sua ideologia é colocada contra a parede. Porque você é refém dela, ela manda em você e não o contrário. Você acredita em sites que eram bancados pelo PT (com o nosso dinheiro) para lhe desinformar. Inclusive lhe fazendo acreditar que a mídia é ‘golpista’. Se informe sobre quantos bilhões o governo federal repassou, via propaganda, às maiores emissoras do Brasil nos últimos anos e veja se isso faz sentido.

Primeiramente, abandone o seu bandido de estimação e defenda valores e princípios que sejam atemporais, como o cumprimento da lei por todos, doa a quem doer, e a defesa da liberdade intelectual. E reflita: será que é inteligente pedir por mais Estado para que outros Cunhas, Dilmas, Lulas, Renans e similares continuem a surgir ad aeternum?