Meu reencontro com Deus, décadas depois.

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Me lembro claramente: era o ano de 1998, meus pais estavam naqueles últimos momentos do divórcio, as brigas eram intensas, e eu, com 11 anos, não conseguia entender nada.

Apesar de não ter sido criado por ambos sob qualquer tipo de religião — ao contário, havia raiva, de ambas as partes e por motivos variados, contra a Igreja — minha avó paterna, dna. Lúcia, maior amor de minha vida até então, mantinha um fio, tênue, do interior de Minas Gerais, em Araxá, nas visitas pessoais nas férias e nos telefonemas, da minha existência, para com Deus.

Foi esta mulher, a mais bondosa que conheci na vida, e sem jamais usar de imposição, que manteve a mais ínfima e, portanto, a mais importante, chama acesa durante uma longa tempestade.

Nesta época de divórcio, no meu quarto, havia uma gaveta com um puxador de madeira, onde, no ápice de meu desespero, ignorância, falta de fé e raiva de um Ser Superior que não intervinha para me tirar daquela situação, peguei um canivete, escrevi “DEUS”, com o canivete, e fiz um “X” sobre o Nome.

Ali, aos 11 anos, e traindo a confiança de minha avó, eu rompera minhas — já frágeis — relações para com Deus.

O tempo passa, o sol parece o mesmo mas você está mais velho, como diria Pink Floyd, a vida lhe apresenta diversos dissabores, e alguns momentos de céu de brigadeiro. E há os tempos, que podem durar minutos, horas, dias, meses ou anos, em que você é jogado na lona, numa espécie de UFC sem juiz para lhe salvar, onde o desespero urge, o caos toma as rédeas de sua mente e, aí, geralmente, o cinismo da ausência de Deus lhe faz tornar tudo perigosamente simples: “Ora, mas se é um sofrimento contínuo, sem luz ou recompensa no fim do túnel, melhor acabar logo com isso” — eis a junção da ansiedade com a ausência da fé, e as ilusões das redes sociais. Eis o perigo supremo da ausência de Deus, com estes ingredientes mencionados, na sociedade moderna, me atrevo a dizer.

E aqui, digo abertamente, e com muita vergonha, invejo os que encontram facilmente a fé. Num versículo, numa música, numa reflexão solitária, no banco da Igreja aos domingos, num trecho de um filme. Eu, não.

Para mim, a fé, e me refiro à verdadeira fé, não a de livros de auto-ajuda, esconde-se; é preciso entrar numa floresta, sem sinais, sem trilhas, e lutar, correr, procurar, virar a noite, sofrer, para ter um pequeno vislumbre do que minha mente entende por fé.

Há pouco mais de 7 anos, quando minha filha nasceu, Cecília, nome de santa e por ser padroeira dos músicos (o que eu também já fui nesta vida, e tomava bronca de minha avó quando compunha letras questionando Deus, com razão, hoje sei…), não fora preciso cruzar qualquer floresta, espinhal, nada. Estava ali, naquele par de olhos, a poucos centímetros dos meus inundados por lágrimas, a fé. Cristalina. Límpida. Deus, ao alcance de minhas mãos.

Não poderia ser. Como, um ser falho, medíocre, descrente, não digno de Deus, pecador, poderia ter sido agraciado com a maior das bençãos desta vida? E, ali, em 13/09/2014, minha mente retirou, com vergonha, o “X” do puxador de madeira, e eu pude, aos trancos e barrancos, com muita arrogância, petulância, impaciência e egoísmo de minha parte, reencontrar Deus. Reencontro ainda em andamento, diga-se.

E nossa memória, algo milagroso por si só, me trouxe infinitas conversas de minha avó comigo, sobre Deus, sobre a importância da Igreja, sobre o quão fundamental era praticar a caridade em silêncio, jamais por ego (como dito no Sermão da Montanha, um dos poucos trechos que lembro de memória, por sua Beleza e sabedoria atemporal — espero estar correto sem usar o Google) mas por amor ao próximo, compartilhar do sofrimento alheio, estender a mão não ao amigo que você ama, mas àqueles que você não conhece. Mais ainda: o fazer sabendo que, amanhã, ele provavelmente não apenas não reconhecerá, como lhe trairá ou lhe magoará.

Ela, uma senhora católica fervorosa, havia me dito, 20 anos antes, o que eu precisava escutar no momento certo. E não há palavras, textos, livros, que possam agradecer por isso. Era como se não houvesse tempo e espaço, não do jeito linear, mas do jeito metafísico da ‘coisa’. Como no filme “Interestelar” (sim, foi a primeira comparação que me ocorreu).

Hoje, dependendo do dia, a fé está logo ali, na esquina. Atrás do poste, escondida, mas está. Ou há dias em que ela não dá sinal. Fica fora do ar, para um teste silencioso. Se coloca em “modo avião”, e não adianta se desesperar. Ou ela está nas palavras finais de um simples último capítulo do “True Detective”, da HBO, com uma frase linda, sobre o brilho das estrelas superar a escuridão, que, acho, é de São João. É até no Botafogo ficando rico, quase um milagre a ser reconhecido pelo Vaticano.

Foi com meu pai, no entanto, não crente, ao menos não assumidamente, que conheci Eclesiastes 3. Não é exagero dizer que leio este trecho (me perdoem se erro a terminologia, é pura ignorância), no mínimo, uma vez por semana. A sabedoria contida naquelas linhas não tem fim.

Com o tempo, e esta é a beleza de ser um retardatário, fui conhecendo o outro lado da Igreja. Li as cartas de Santa Catarina de Sena; verdadeiras aulas de fé, amor a Deus e sabedoria — sempre com humildade. Vi os filmes sobre João Paulo II. Conheci as mais lindas e extraordinárias histórias desta Instituição que, não à toa, sofreu e sofre ataques generalizados diariamente, como se fosse não uma tentativa humana de contato com Deus, mas como se fosse o extremo-oposto: o Diabo encarnado, nas pedras do Vaticano. Quanta insensatez, quanto ódio.

A cada dia, à noite, quando Deus me concede o privilégio de rezar o “Pai Nosso” com minha filha, e muitas vezes, pela falta de intimidade deste que vos fala, eu erro a oração, mas ela acerta, eu quase consigo sentir a presença Divina. E é neste acertar de minha filha, no sorriso compreensivo diante do erro de seu pai, numa oração tão singela, simples, que volto a sentir o calor do amor de Deus. Na oração que Ele nos ensinou, está o Caminho.

E, hoje, bem como percebo que este texto ficou um pouco confuso, vejo que sem Jesus Cristo nosso mundo não seria nada. Andaríamos cegos, mais do que já somos; sentiríamos um vazio, maior do que o que já sentimos nos momentos de desespero, e não haveria a quem recorrer. Seríamos todos como Sísifo.

Por nós, e esta é minha crença atual, Ele deu seu sangue, Sua vida e nos abriu o reino dos Céus. Hoje, é dia de reflexão. De oração. De olhar para o espelho e, com absurda sinceridade, rezar pelo próximo.

Ao menos comigo, o processo é tão lento que, em em fevereiro de 2018, salvo engano, eu estava em Minas quando soube do assassinato da vereadora Marielle, com quem eu havia, por ocasião do destino, conhecido pessoalmente num debate sobre a reforma da previdência, na PUC-RIO, com o vereador do NOVO, Leandro Lyra. Ela e eu nos cumprimentamos rapidamente, por dentro eu estava furioso por seus comentários sobre o tema em si, em que ela, claro, defendia o extremo oposto do que eu acreditava.

Mas ali, no quarto do hotel em Minas, ao saber da notícia, instintivamente, eu não pensei que havia morrido uma adversária política, como outros o fizeram efusivamente — e ainda o fazem; pensei justamente em algo que beirava a ingenuidade, mas que não trouxe rancor ao meu espírito: Deus, uma menina tão nova, com a vida inteira pela frente, vida onde ela poderia (ou não) inclusive mudar de opinião, como eu mesmo mudara, de um revolucionário para um espectro mais conservador, menos raivoso e mais tolerante. Que lástima. Que país, que cidade, em específico, permite que uma menina seja morta de forma tão brutal? E, ali, sem saber um pingo de teologia, tentei rezar por ela. Para que ela encontrasse paz. Onde estivesse. Mas, depois, me questionei se eu deveria ter rezado por ela: “Será?”. E é claro que sim, evidente e cristalinamente que sim. Ao menos ali, no instinto, um pecador acertara. Quem era eu, ou sou, para julgar, com o pesado martelo de juiz, uma menina assassinada? Eu não era, não sou e jamais serei alguém para tal. E até hoje, em fevereiro, costumo lembrar e rezar por ela.

Nos dias que se seguiram, ainda em 2018, me lembro do choque que senti ao ver, como hoje é comum nas redes, uma vida humana, real, de carne e osso, ser rapidamente transformada em algo frio, como a tela de nossos computadores e celulares. A espetacularização da barbárie. De um lado e do outro. Mas, ali, e do lugar muito fácil de não ser parente da mesma, diante daquele caos, mais uma vez, consegui encontrar o Caminho de Cristo.

E eu gostei das palavras recentes do Papa sobre o Mal.
Inclusive citando Dostoiévski, com o trecho de “O Grande Inquisidor”, dos “Irmãos Karamázov”, fazendo alusões sobre o mal estar na guerra, de irmãos matando irmãos ser como uma agressão a Cristo — algo neste sentido.

Hoje, com toda ignorância do mundo, e sem saber trechos da Bíblia de cor, me ajoelho diante de nosso Senhor. E daqui a 72 horas, mesmo o mais pessimista botafoguense, eu apostaria a minha vida na certeza de que Ele voltara do mundo dos mortos. Não haveria, jamais poderia haver, pedras capazes de deter o Nosso Salvador.

E eu desejo, sem ser piegas, que o máximo de pessoas consiga encontrar a mínima, por menor que seja, fé em Deus.

A você, que chegou até o fim deste confuso texto-desabafo-quase-heresia, uma ótima Páscoa. E obrigado, Deus, por ter me dado minha avó e minha filha. E obrigado, vó e Ciça, por terem me devolvido Deus.