Chumbo e indiferença

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Em menos de 12 horas, ontem, no Rio de Janeiro, 3 policiais foram assassinados: Maurício Chagas Barros, Luciano Coelho e Filipe Santos de Mesquista.
 
Daqui a 1 semana, somente suas famílias se lembrarão do ocorrido. Se vão deste mundo sem pompas e hashtags, sem luto oficial, sem comoção, caídos no chão frio de Belford Roxo, Cabo Frio e da Rocinha.
 
Podem ser pretos, brancos, pobres ou ricos, são democraticamente ignorados pelos mais influentes de nossa província porque são PM’s. E a PM, nesta narrativa, “só mata preto e pobre”. Logo, a PM é inimiga dos pautadores da opinião pública, cujos valores morais encontram-se no esgoto do subsolo do fundo do poço.
 
Defender policial não faz com que duviviers e similares ganhem pontos no boteco chique do Baixo Gávea.
A menção a morte deles só vale em discursos vazios com a clássica e covarde frase: “a PM que mais morre é a que mais mata também, né?”, num simulacro de preocupação.
 
No Brasil, a vida, de um civil ou policial, não vale um níquel. Nada. Ainda que todos os assassinos, num ato de arrependimento coletivo, se entreguem, passarão pouquíssimo tempo atrás das grades. Nossa Constituição não permite prisão perpétua, nossos estados não tem autonomia para aplicar leis diferentes. No papel, somos um país progressista, à frente de seu tempo, à frente da própria realidade. Na prática, somos um vexame, uma vergonha, uma nação que não consegue descobrir e punir exemplarmente quem mata seus cidadãos; onde grande parte dos políticos se elege defendendo bandidos de peito aberto, orgulhosos.
 
Hoje, enquanto estes políticos tomam seus cafés expressos, os três policiais assassinados serão enterrados sob a chuva forte que cai no Rio neste momento. Para eles, não houve final feliz de novela. O Brasil real chegou na forma de chumbo e indiferença.

Atualização importante: 
Um leitor me enviou Inbox com a seguinte informação: o Sr. Antônio Ferreira da Silva, de apelido Marechal, morador da Rocinha, foi morto por traficantes após ter ajudado do Soldado Filipe Santos de Mesquita, o colocando atrás de uma geladeira — seu ofício era o de reparar eletrodomésticos — e, mais do que isso, guardar seu fuzil e entregá-lo à PM depois.

Por ter tomado estas atitudes, foi assassinado. Marechal tinha 70 anos. A imprensa está dizendo que foi “bala perdida”. Não.

Aí, daqui a uns anos, virá um traficante dando entrevista com pinta de bom moço. São assassinos. E como tal devem ser tratados.