Brasil: o país do faz de conta

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Cresci encantado com as supostas maravilhas do país: 13º salário, as “proteções” ao trabalhador criadas por Getúlio Vargas, direitos, ah! quantos direitos, que “beneficiavam o trabalhador”. O governo sempre estava a postos para nos defender dos vilões que espreitavam em cada esquina: os patrões. No Brasil, antes de aprendermos a jogar futebol, descobrimos como odiar o “patrão”, e lembro do slogan “quem bate cartão não vota em patrão”, do PCO (Partido da Causa Operária). Feliz do país que tem um governo tão bonzinho para nos defender de todas as ameaças, com uma exceção: ele próprio, claro. Muito rapidamente descobre-se que somos o país do “aparentemente”. “Aparentemente”, essa lei serve para beneficiar os cidadãos. “Aparentemente”, essa empresa estatal existe para a sociedade brasileira. “Aparentemente”, estes direitos protegerão o trabalhador. É o faz de conta oficializado.

Uma mudança recente do governo para proteger trabalhadores indefesos foi a “PEC das domésticas”, que trouxe uma série de regras que, na teoria, protegeriam a categoria de profissionais dos mesmos patrões fascistas e exploradores. O que a esquerda chama carinhosamente de: “casa grande”. O que houve na prática? Muitas domésticas que tinham um acordo verbal e financeiro com seus empregadores, e que elas achavam justo e bom, acabaram sem trabalho. Quem saiu prejudicado? O governo? Os patrões? Não. Pois é. Quem, em tese, deveria ter sido protegido. E por que isso acontece? Porque o Estado tem a mesma habilidade de mexer na economia que um cego tem ao fazer uma micro-cirurgia no cérebro de um paciente agonizante.

Depois de aprender a direcionar bem esse ódio, começamos a acreditar em fábulas que deixariam os Irmãos Grimm com inveja: a que acho mais curiosa é a que diz que o “Petróleo é nosso”, fazendo referência à Petrobras. Sim, a mesma Petrobras que levou acionistas à ruína, a mesma Petrobras que deixou a região norte do estado do Rio de Janeiro com um número incalculável de desempregados, a mesma Petrobras que é assaltada há décadas, e cujo lucro, quando existe, é do governo e cujo prejuízo, constante, é do pagador de impostos. Paulo Francis, ainda na década de 90, ao acusar diretores da estatal de terem contas na Suíça, foi covardemente processado, fato que acarretou diretamente em sua morte. A gasolina no Brasil, caríssima e oficialmente “batizada” com álcool, não me parece ser algo “nosso”. Enquanto isso, nos Estados Unidos, um país de capitalistas malvados, patrões em cada esquina, e sem uma “PetroUSA” para defendê-los, a gasolina, não batizada, só fica cada vez mais barata. Principalmente quando se compara o poder de compra do trabalhador médio de lá com o daqui.

Mas história do “Petróleo é nosso” é antiga. A campanha que é usada em 2016 é a mesma que foi feita entre 1947 e 1953, quando o nacionalismo venceu o livre mercado, para azar do Brasil. Na época, como hoje, quem defendia a competitividade era chamado de “entreguista”. E a UNE, quem diria, organizou, à época, a semana e o mês do petróleo, como forma de pressão. Em 53, Vargas criaria a “nossa” Petrobras. Em 2006, Luis Inácio Lula da Silva (foto principal imitando Getúlio) declarou que o Brasil era “auto-suficiente” em petróleo. O fez na companhia de sua ministra da Casa Civil: Dilma Rousseff.

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Homenagem a Artur Bernardes (painel)

E você, leitor, pode me perguntar: “mas quem ganha com esse teatro?”; e eu faço questão de responder: os que querem manter as coisas como elas sempre foram. Sindicatos, partidos políticos, organizações estudantis, “ONG’s” e alguns servidores. Basta seguir o fluxo do dinheiro. E quem manda nesse dinheiro. Fique atento aos que berram que o “Petróleo é nosso”, eles sabem que mentem. Quando você vir alguém com uma camisa onde se lê: “O petróleo é nosso”, pergunte aonde ele pega gasolina grátis e me envie o endereço.

Outro ponto a se observar das fábulas brasileiras é que todas são usadas para fazer chantagem com a população menos esclarecida:

— “Eles querem tirar a Petrobras da gente!”

— “Eles querem acabar com o Bolsa Família!”

— “Eles querem acabar com o SUS!”

Não há base real para nenhuma dessas afirmações. Há base, como disse acima, para chegarmos à conclusão de que a Petrobras já foi privatizada, principalmente no governo do PT, mas a população não participou do processo. O Bolsa Família, que consome pouco do PIB, também não causa estranheza ao brasileiro. Mas assusta o terrorismo psicológico feito com o programa e o fato de não tentar se criar alguma porta de saída para ele. E não posso deixar de notar no absurdo que é um partido — PT — que se orgulhava de milhões de pessoas dependerem única e exclusivamente do Bolsa Família, como se isso fosse mérito, não motivo de falência total da economia de uma nação.

E o SUS? O SUS, assim como a lenda do ‘nosso’ petróleo, é linda. Tão linda que os nossos nobres governantes não o utilizam. Mas como são extremamente bem assessorados, dizem que não o usam para “deixar para quem precisa”.

E as faculdades “grátis”? São lugares pagos pelos mais pobres para os mais ricos estudarem. É ou não é super justo?

O Brasil é, também, o país do fundo de partidário, uma aberração, que pega dinheiro de impostos e o distribui para os partidos políticos.

Mas, caro leitor, a realidade e os fatos não tem muita importância no Brasil. Moramos na Disney World e quem tenta argumentar é visto como pessimista e fascista. É preferível que tudo continue como está, na visão dos que se beneficiam desse estado das coisas. Por aqui, uma frase antiga do escritor Frédéric Bastiat causaria enorme surpresa: Todos querem viver às custas do Estado, mas esquecem que o Estado vive às custas de todos.