A ressaca moral e o soldado de Lula

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Ontem, uma ciclovia recém-inaugurada por R$47 milhões, no Rio de Janeiro, se partiu em dois. Ela faz parte do “legado olímpico”. A quem interessava os jogos olímpicos? Às empreiteiras e aos governos e aliados. Só. Não conheço um cidadão fluminense empolgado com os jogos. Assim como o “legado da Copa” e o “legado do Pan”. Os legados? Muito dinheiro público roubado.

A ciclovia de Eduardo Paes me lembrou de sua conversa grampeada com o Lula. Onde ele se coloca como seu ‘soldado’, humilha os pobres e destrói a cidade de Maricá. O linguajar? Típico de traficantes pegos em grampos. Parece que é uma condicionante: “precisamos falar palavrões, precisamos falar como gângster”, e faz sentido, porque o são. Al Capone seria um batedor de carteiras perto do que os profissionais do poder fazer aqui. É importante ressaltar isso: o caráter de Eduardo Paes está ali, sob holofote e longe de assessores de marketing, exposto.

Seu secretário, eventual namorado de Paes, ao que consta no imaginário popular carioca, que apareceu em todos os telejornais, o Sr. Pedro Paulo, acusado de espancar sua ex-mulher, com pose de sério, estava mais indignado do que os familiares dos mortos — eu aposto um braço que ele não sabe o nome dos mortos — num teatro mal feito e mal ensaiado. Ele só quer saber das eleições municipais que tem à frente, com grandes chances de ser eleito.

À noite, ontem, divulgaram o vídeo da hora em que parte da ciclovia cede à força da natureza e cai, matando, até agora, 2 pessoas. Parece que outras 3 estão desaparecidas. O vídeo é um convite filosófico sobre a brevidade da vida, a roleta russa com que Deus joga seus dados: você vê pessoas caminhando, andando de bicicleta no sentido contrário. A morte estava ali, foice nas mãos, há 2 segundos. As próprias pessoas parecem não se dar conta de que não morreram por passos de distância.

As fotos da ciclovia impressionam: parece uma tábua de MDF sobre o oceano furioso, e você ouve tudo que sempre se ouve: “os culpados pagarão”, “a responsabilidade será apurada”, “o importante agora é focar nas vítimas”. E aqui está o X da questão brasileira. Em bom português, ‘focar nas vítimas’ é: ganhar tempo para preparar a propaganda para reduzir os danos. Eles não estão nem aí para quem morreu, quantos morreram e como morreram. O urgente é minimizar a ligação de seus nomes à tragédia.

E as explicações são geniais: a onda, nesta força, neste ângulo, nesta época do ano, naquele vértice, naquele canto…e eu lembro de um vídeo de Raul Seixas — sim, sempre lembro dele — ao ver que seu carro fora atingido pela ressaca, acho que na década de 80, no Rio de Janeiro. Ele disse: “a onda tá certa, bicho”. E na sabedoria ímpar de Raulzito, todos os que não tem rabo preso, sabem: a onda tava certa, bicho. O que não estava certo era uma obra possivelmente super faturada, porque generalizar neste ponto não é injustiça. A surpresa seria se fosse o oposto. E além de super faturada, este que vos escreve faz um desafio: ninguém será preso e, se for, por milagre, não passará mais de 1 ano em cana.

E os corpos da cadeia de eventos que levou à queda da ciclovia, estirados na areia da praia de São Conrado, com uma turma jogando altinho no fundo, tem muito a dizer. A esposa que se debruçou incrédula sobre o corpo do marido, que horas antes lhe dava um beijo de despedida e ia caminhar pela sua cidade, também tem muito a dizer. E em uníssono, ao menos para meus ouvidos, dizem: “até quando? até quando e até quando?”

E lembro do meu pai, com seus trocadilhos, ontem, sugerindo uma resposta do Eduardo Paes sobre as investigações: “de concreto, não havia nada”. É isso. Nada de concreto, devia ser areia.

Cai a ciclovia, caiu a passarela, caiu parte do Engenhão. E vem as olimpíadas com seu único legado, lembrem-se: empreiteiras da Lava Jato e políticos governistas muito mais ricos e satisfeitos.

Estes senhores deveriam sentar no banco dos réus com a mesma velocidade de Usain Bolt para concluir seus 100m rasos.

Os meus sentimentos às vítimas de um ‘Estado que não é nação’.