Um conto sobre a Morte

0
3168
A confusão aclara.
O caos conforta.
O inferno acolhe.
O fogo é amigo.
A loucura elucida.
O medo atrai.
O desespero acalma.
A escuridão ilumina.
A ferida permanece.
A morte espera.
 
Todos nós, numa fila, única. Única fila, desde o primeiro dia. Os lugares se alteram, furam-na sem parar, tropeçam, deixam passar, voltam para o último lugar, o medo de ser sua vez paralisa, ninguém quer estar na frente, um escorregão e lá estará Ela. Esperamos todos, estaremos todos. Nossa vez. Evitamos pensar. Não temos pressa ou temos? Medo ou desejo? Nossa despedida de todos que conhecemos, nada mais é do que um primeiro encontro com Ela. E único. Desejamos passar tudo de novo? Quem tem coragem de entrar na fila novamente? Você? Eu? Eles? Vós sabeis, Ela tudo sabe. Nada é novo para Ela. Peões repetidos dentro da mesma caixa. Somos o que somos? Não há compaixão. Nós não temos e nem queremos, porque Ela haveria de ter e querer? Nos entregamos. Uma vida inteira de preparação ou alienação, tanto faz, nada adianta. Ela dominará o encontro, Ela conduzirá a cena, guiará a carruagem, negra. Sob a noite. As estrelas fogem, a lua permanece tímida e solitária. Testemunha única para sacramentar o ritual. Não há beleza, não há poesia, não há harmonia, melodia, nada. Silêncio. Frio. Vazio.
Ela impávida, amante respeitosa e implacável. O ar desaparece, sua face se mostra aos poucos.
O momento é único, parece ser inesquecível. E será.
A mão é estendida e logo segurada, tomam-se os lugares. O banco aveludado num tom vinho, sua companheira de uma só noite ao seu lado. Ela inclina o rosto e a visão, agora por completo, se revela. Ousado e tolo seria aquele que tentasse descrever tal feição.
Ela não lhe acalma, tampouco provoca a inquietação.
Nulidade de sensações por uma fração eterna de segundo.
Ela se despede. Sem gestos, palavras, olhares. Tem-se certeza que a despedida foi feita.
A carruagem para. Se Ela estava ao seu lado, quem conduzia? Quantas perguntas preparadas ao longo de sua ínfima vida para esse momento, e nada. Sua boca não se mexeu, seus olhos mantiveram-se abertos, nem um piscar. Quanto tempo se passou? Na fila e no encontro, quanto tempo? Tarde demais ou cedo demais?
E agora seu pé estava quase encontrando o chão, era o fim. Fim de algo que não começou. Nunca.
Veja a mais nova postagem do Diário da Corte!