Relato de um prisioneiro sobre José Dirceu

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por: Alexandre Karamazov
Nota do autor: este é um conto de ficção. Qualquer semelhança com nomes, fatos e situações verídicas é mera coincidência.

Minha vida sempre foi feita de assaltar carros-forte, começando aos 15 anos em Diadema, e nunca mais parando, até entrar em cana. Possuía os contatos internos das empresas e bancos, o que facilitava meu trabalho. Fui condenado e preso, agora estou na Papuda, presídio que fica aqui em Brasília-DF, de onde lhes escrevo agora.


Ano passado, perdi meu sono com as sirenes que trouxeram uns senhores velhinhos, de cabelos brancos e caras assustadas, no meio da madrugada. Só depois fiquei sabendo quem eram e o que haviam feito. Eram os presos do tal Mensalão.
O José Dirceu provocou revolta aqui no pessoal, porque sua cela foi construída especialmente para ele, sob encomenda, no lugar de uma ex-cantina, sendo a maior do presídio, de onde ele acompanhou até a Liga dos Campeões, recentemente. Recebeu visitas fora do horário permitido e teria até falado ao celular, com alguém no Planalto. Também fiquei sabendo que a promotora que descobriu isso foi execrada por ter feito seu trabalho, que era investigar. Tomou dura até do chefe, Procurador Geral da República. Cumprir a lei no Brasil é ilegal, isso todo mundo aqui de dentro sabe, coitada dela que não aprendeu.

Eu demorei mais de 1/6 da minha pena para ousar procurar trabalho fora daqui, o que não adiantou muito, porque ninguém gosta de trabalhar com bandido. A dificuldade em arrumar um bico, somada à burocracia brasileira — que não distingue honestos de desonestos –, me fizeram agradecer a Deus quando arrumei um posto na cantina da Papuda.
Em uma das vezes que fumava meu Free mentolado, com o pessoal do pavilhão B2, me disseram que o Zé Dirceu iria receber 20 mil reais para ser gerente de um hotel de luxo aqui em Brasília. Confesso que não acreditei e pensei que fosse piada da malandragem. Não era, eu vi no Fantástico e era aquilo mesmo que tinham me dito. Depois ele desistiu porque tinha repercutido mal na imprensa. Era para menos?
Semana passada, o Flávio, meu ex-companheiro de assaltos, que trabalha fora — ele demorou metade da pena para ter autorização — na empresa do padrasto, saiu e disse que o Zé tinha até motorista particular! E que ele procurou, na internet do trabalho, as acusações feitas ao Dirceu pelo STF. Era só coisa pesada, de peixe grande, segundo ele. Nada amador, muito pelo contrário. Flávio me contou que o Dirceu, em outra época, fugiu do país, fez plástica em Cuba, e morou no interior do Paraná, com direito a nome falso: Carlos Henrique Gouveia de Melo. Chique, hein? Quando a coisa abrandou, José ou Carlos, abriu o jogo para a mulher e se mandou para Cuba novamente, para desfazer a cirurgia. Deixou a mulher e o filho de lado, para voltar ao Brasil como anistiado, pela “porta da frente”, no aeroporto. Coisa de profissional, pensei eu. Eu e Flávio até brincamos, dizendo que iríamos chamá-lo para ser o chefe da nossa quadrilha, quando geral saísse daqui.
O coroa tinha até uma Hilux, novinha em folha, para ir trabalhar na biblioteca de um amigo advogado, ex-ministro do TSE, outro “Zé”, José Gerardo Grossi. Tutti buona gente! Enfim, uma confusão danada, para simples assaltantes como eu e Flavinho “Cano Curto” (ele adorava serrar o cano da escopeta).
O resumo é que o José Dirceu ia tirar 2 mil conto para arrumar livros, com duas horas de almoço.

Após saber de tudo isso, confesso que tive vontade de cruzar com ele nos corredores, porque o Flávio também me contou que a quadrilha do Zé, a do Mensalão, roubou milhões de reais de dinheiro público, do povo trabalhador, honesto, dinheiro esse que, ao contrário dos bancos, não possuía seguro, indenização. Uma vez roubado, já era. Eles roubaram isso tudo para comprar o já comprado Congresso e, claro, para enriquecimento pessoal. Isto me deixou puto, possesso e irritado como há muito não ficava.

Se eu, que nem chefe da quadrilha era, sou tratado como o Osama Bin Laden, por que o cara que tentou derrubar a democracia brasileira só tinha benefícios?
Aonde já se viu algum bandido ameaçar o juiz que o condenou e sair ileso? Ainda mais sendo o presidente do Supremo. Até para mim, bandido vivido, isso é novidade.
Um sujeito que traiu a pátria, como ele, em outros países, seria executado num piscar de olhos, ainda mais depois de um julgamento de mais de 6 anos, pela mais alta corte do país. Aqui no Brasil ele é perdoado, idolatrado e paparicado.
Porra, como diria aquele cantor aqui de Brasília: que país é esse?

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