Quanto mais panelas, melhor!

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Um grande amigo me diz que não aguenta mais ouvir panelas batendo na vizinhança, no Rio de Janeiro, após o discurso do Presidente. Respondo: pois que batam. Vá além: pegue a sua própria Tramontina, colher de pau e faça o mesmo. É uma espécie de contra-inteligência do bem.

Quanto mais panelas forem batidas, mais irritada ficará a maioria literalmente silenciosa, exausta de tramoias políticas.A mesma maioria que elegeu este presidente. E que, com razão, às vezes perde a paciência com o próprio.Para esta maioria, ainda que Bolsonaro não seja um anjo enviado por Deus, é melhor do que a oposição que destruiu o Brasil — a mesma que finge que não é com ela.

Gastaram bilhões com Pan-americano, Copa, Olimpíadas, Porto na Cuba que os pariu, metrô na Venezuela, mais um troco bilionário para ditaduras africanas, e despudoradamente, em alto e bom som, tentam dar lição de moral. Eles, os saqueadores de estatais. Num país mais sério, Lula não estaria fazendo jogos políticos com Dória, no Twitter; estaria jogando baralho no xilindró, onde o coringa máximo não seria um ministro do STF, que o libertaria, mas apenas um de papel, inofensivo à sociedade.

Enquanto isso, a sociedade quer ter o direito à informação (não à torcida-organizada) e, claro, aos mesmíssimos medicamentos oferecidos nos hospitais de ponta — onde os poderosos vão se tratar. Se houver desejo do doente e do médico, não deveria caber ao Estado a tutela deste ou daquele remédio. Tenho a impressão de que, da noite para o dia, a cloroquina virou o novo crack. Vejo um jornal e quase me convenço que idosos se juntarão nas esquinas para fundar a “Cracloroquinolândia”.

Em tempos binários das redes sociais, é importante ressaltar que também não acho responsável que a mesma seja alardeada feito tábua de salvação, ainda mais sozinha e por leigos como eu, tal qual um Tylenol para uma leve dor de cabeça. Evidentemente que não. Mas demonizá-la, escondê-la, e o mais torpe: torcer para que não funcione, é imoral.Cada caso — deveria ser — um caso: seja de um paciente ou de uma cidade em quarentena.

Por falar em quarentena, é curioso notar que uma parcela da população parece ainda não ter se dado conta de que existe um Brasil por trás dos bastidores do Baixo Gávea: um que não tem poupança, nem corretor de investimentos, não tem tapete de yoga na varanda-gourmet, muito menos condições de ficar “esperando a morte chegar”, como diria Raul Seixas, enquanto jogos políticos são feitos. É como se alguém tivesse levantado as cortinas e, surpresa!, existe gente trabalhando nos bastidores. Quem diria?

É preciso ter liberdade. Sempre acompanhada de responsabilidade. Tal como a cloroquina bem acompanhada pela azitromicina, como dizem alguns (grifo o ‘alguns’) relatos médicos.

Quem sabe, num raro momento otimista vindo de um botafoguense, Deus permitirá que nós, atingidos histórica e violentamente pelo ‘Anopheles’, o maldito mosquito da malária, tenhamos este ‘efeito-colateral’ do bem: salvar vidas com esta substância.
O Brasil merece boas novas.E torcer por um final feliz — ou menos triste — não custa nada.

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