Quando Roubar é Permitido e Vaiar é Proibido. – Dilma e um Forasteiro na Abertura da Copa

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Imagem: “O Grito” – Edvard Munch

por: Alexandre Karamazov
Nota do autor: este é um conto de ficção, qualquer semelhança com histórias, nomes e acontecimentos verdadeiros é mera coincidência.



Moacir Jr. é um experiente tradutor, nascido e criado em Marechal Hermes, bairro da Zona Norte do Rio, que se mudou para a Inglaterra há 11 anos, onde vive até hoje, em Manchester. 
Chegando em São Paulo soube que teria um lugar privilegiado na abertura do evento, se sentaria próximo de autoridades, e se sentia preparado e entusiasmado para esta nova etapa profissional. 
A cerimônia de abertura começou e uma sensação de vergonha, misturada com incredulidade, tomou conta dos presentes em poucos minutos. Moacir jurava que veria os clichês carnavalescos, mulatas e muito samba. Não, nem isso. Foi pior que isso. Se lembrou de sua infância, no colégio público, na época das festas juninas. Assistia ali à uma enorme quadrilha, feita por crianças de alguma escola local, de repente era isso, alguma coisa que envolvesse inclusão social, porque o PT gostava muito desta palavra. Viu emergir do centro do campo uma espécie de flor de lótus, de onde surgiram três pessoas. Um moço calvo, com pinta de traficante saído do “Scarface”, uma mulher muito bonita, aparentemente latina, com o inglês perfeito porém completamente perdida, e uma moça loira, baixa, com cabelo alisado, corpo bem delineado pelos melhores bisturis do Brasil aparentemente, com uma espécie de maiô azul que lhe lembrou a “Galinha Pintadinha”, personagem infantil que seu sobrinho sergipano adora. O playback, a princípio, o irritou por estar acostumado a grandes concertos de rock na Europa, mas depois pensou que era melhor o ruim afinado digitalmente e bem equalizado, do que o desafinado naturalmente e mal amplificado. Dos males o menor.
Antes de vir para este trabalho, uma coisa que chamou a atenção da comitiva britânica era o alardeado feito de um cientista brasileiro e sua equipe, que prometiam fazer um paraplégico dar o chute inicial desta Copa, andando por 25 metros, gramado adentro, e fazendo história. Todos aguardavam por aquele momento. No canto dos olhos, viu um rapaz vestindo um macacão com a bandeira do Brasil, sendo levantado por 2 assistentes e, do lado de fora do campo, dar um chute na pelota. O príncipe pensou se tratar de um ensaio, mas nosso bravo tradutor explicou, ainda incrédulo, que já tinha passado. Talvez o lance merecesse replay e tira teima, tamanha velocidade de execução e a ignorada vexaminosa por parte da FIFA. “Traduzir e não julgar…”, repetiu para si mesmo, Jr. 
A presença da presidente Dilma foi anunciada e houve vaias, altas, contundentes dos presentes no estádio-legado do PT/Corinthians/”povo brasileiro”. Depois, mais vaias e, por fim, um xingamento entoado como se combinado fosse, onde as palavras eram: “Dilma, vai tomar no cu”. Sua alteza, fã de futebol, ansiosamente pedia para Moacir traduzir, pensando se tratar de algum grito de incentivo à Seleção Brasileira. Esse não furtou-se à profissão e explicou, em inglês, o que estavam gritando. O outro, muito respeitosamente, assentiu com a cabeça e encostou. Voltou a ver o jogo, atento a cada lance. E o resultado dentro de campo foi o que todos já sabem. 
Voltando ao Hotel, lendo notícias na internet, o príncipe lhe chamou e pediu que traduzisse alguns destaques da imprensa brasileira. Ele parecia muito interessado na repercussão e na opinião em geral dos jornalistas e das pessoas. 
O príncipe perguntou se era comum que um ex-presidente desse bronca na população, que outrora governou; também questionou, apaixonadamente, se existia no Brasil, famoso por sua mistura de raças, credos e classes, esta casta de “pessoas bonitas que comeram a vida inteira” e se isso era motivo de vergonha por parte dos bem alimentados e, em tese, bem apessoados. Júnior respondeu que Lula, desde que entrou no poder, começou a provocar de forma deliberada uma divisão no país. Fomentou a discórdia entre brancos e negros, índios e caboclos, fazendeiros e ambientalistas, civis e militares, servidores públicos e particulares, alfabetizados e analfabetos, ricos e pobres. E agora, entre feios e bonitos. Que ele tinha certo prazer sádico em ver o povo se digladiando, enquanto eles, os governantes do PT e aliados, mantinham-se numa redoma de ouro, insensíveis a tudo e a todos, se perpetuando no poder enquanto pseudo-celebridades e anônimos ficavam ansiosos e com tesão para tomar partido em coisas pequenas diante de tudo que acontece no país. No caso, contra as vaias e os xingamentos. E que o lado comunista prefere ver todos passando fome, ignorantes, pobres e dependentes do Estado, justamente para não ter a atitude da vaia. 
E mostrou mais uma notícia ao príncipe, que narrava vaias recebidas pela mesma Dilma em Belém, num evento muito menos romântico do que uma abertura de Copa do Mundo, onde pessoas – o repórter não relatou a beleza e a quantidade de comida no estômago das mesmas – vaiaram contundentemente a presidente. Fez questão de abrir o Youtube e também apresentar uma vaia espontânea, em 2013, surgida em prédios da Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, um ato até então inédito, de pessoas que foram às suas janelas manifestar-se durante um pronunciamento oficial da Dilma. O inglês viu o vídeo umas 5 vezes, impressionadíssimo. Mostrou as vaias ao ex-presidente Lula no Maracanã, no PAN de 2007, no Rio de Janeiro, onde logo após, também, o mesmo tratou de dizer que era uma minoria elitista.  As vaias à própria Dlima na abertura da Copa das Confederações no ano passado. As mesmas vaias por prefeitos de inúmeras cidades brasileiras dirigidas frente a frente à presidente, no ano passado. Vaias de operários no Rio de Janeiro. E outras inúmeras situações, não só por pessoas, entre mil aspas e supostamente, “bem apessoadas e bem alimentadas”. Até porque, até onde Moacir sabia, nem a Abin saberia rotular os milhares de presentes no estádio aquele dia. E conclui: Se vossa alteza me permite, isto é mais uma contradição do governo petista, porque disseram que a Copa seria para o povão, logo, ou mentiram aí (dizendo que o público era rico) ou estão mentindo e simplificando a reação agora da população em geral.
N.A.: Este é um conto de ficção, qualquer semelhança com histórias, nomes e acontecimentos verdadeiros é mera coincidência.
Vaias ao Lula, PAN de 2007:
Vaias à Dilma. Prefeitos, 2013:
Vaias à Dilma. Belém: 
Vaias à Dilma – pós pronunciamento em rede nacional, espontâneo – 2013:
LINK sobre pronunciamento oficial do Partido dos Trabalhadores sobre ameaças de morte sobre Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal: “Não existem vídeos correspondentes”. 




Convidado pela Monarquia Britânica para acompanhar a comitiva Real no Brasil, durante a Copa, aceitou prontamente, sendo um aficionado por futebol, desde os tempos do juvenil no Botafogo. 
Mesmo na terra da Rainha, Júnior mantinha-se informado sobre as principais notícias daqui, tentando se aprofundar em todas, o quanto e quando fosse possível.

Traduziu as palavras de Renan Calheiros, chefe do Congresso Nacional, homem muito habilidoso com as palavras, educado e gentil. Um tipo que seu pai, Moacirzão, como era chamado, sempre classificou como o mais perigoso: “São como cobras. Elegantes, silenciosas, majestosas em certa medida e te matam sem você nem ver…”. Explicou ao príncipe que o Senador dava-lhe as boas vindas e que sua neta iria estudar nos Estados Unidos em breve,  Júnior ficou constrangido de perceber que, para o senador, EUA e Inglaterra eram como se fosse uma mesma coisa, talvez pelo idioma, pensou. Relevou. Seu papel era apenas traduzir, não julgar. Após divagar um pouco, fez a tradução da presidente da República, Dilma Rousseff, que fez pomposas apresentações, agradeceu a visita, explicou que o estádio seria um legado para o Brasil – e aqui Moacir filho lembrou que o ex-presidente Lula é um corintiano doente, tendo amizade próxima com o também ex-presidente do clube, Andrés Sanchez – e que achava que a Inglaterra iria bem no campeonato. Riram todos. Sentaram-se ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que olhou respeitosamente o tradutor e  toda comitiva, dando espaço para que passassem até seus lugares. 




No primeiro link, o tradutor explicou que o ex-presidente Lula, aliado de Dlima, tinha dito que “essa teria sido a maior vergonha que o país já viveu”, e o príncipe o interrompeu, perguntando se os sucessivos casos de corrupção não haviam acontecido no mandato “deste cara”, e Jr. disse que sim, que estavam presos, inclusive, seus principais ex-ministros de confiança, e explicou que ele havia pedido desculpas à nação, com medo do Impeachment, que a oposição nada fez na época, que depois Lula mudou o discurso saindo de vítima para uma espécie de cúmplice oculto injustiçado, dizendo que o julgamento tinha sido pouco técnico e muito político, e Moacir adiantou-se e continuou dizendo que os ministros que os condenaram foram indicados, em sua maioria, pelo PT. Pareceu que o príncipe não entendeu nada. Ele também não entenderia, fosse o contrário. No mesmo site, havia a seguinte declaração do ex-presidente do Brasil: “Você viu que não tinha ninguém com a cara de pobre, a não ser você, Dilma. Não tinha nenhum pelo menos moreninho. Era a parte bonita da sociedade, que comeu a vida inteira e chegou ao estádio para mostrar que educação a gente aprende em casa, vem de berço. Eu duvido que um trabalhador desse país, que uma mulher ou que um homem tivesse coragem de falar 1% dos palavrões que eles destilaram, de uma cretinice fomentada por uma parte da imprensa brasileira”. Quando a tradução foi concluída por parte de nosso tradutor, o sucessor do trono levantou-se, pegou um copo de Whisky puro malte e sentou-se na varanda do quarto. Parecia pensativo, tenso e ansioso. Chamou Moacir para uma conversa, disse que gostaria muito de ouvir a opinião dele como brasileiro e não como tradutor. Ele, por seu costume de não julgar e somente traduzir, ficou temeroso mas aceitou. 

Foi interrompido pelo monarca inglês, que pediu-lhe desculpas por tantas duvidas e pela interrupção não costumeira, que ainda não entendia como, em uma democracia, os governantes, servidores do povo, tinham a audácia de dizer a ele como se comportar e culpar a imprensa livre, independentemente da beleza e do estômago dos mesmos, afinal, segundo ele mesmo sabia, a Constituição brasileira assegura, em tese, que todos somos iguais. E que leu comentários de pessoas dizendo que “ali não era lugar para protesto”, e riu. De forma pura, ele riu. Quantas vezes na vida, um cidadão tem o direito de se manifestar de forma clara, direta e sem interlocutores aos seus governantes? Pouquíssimas. Ele perguntou e também respondeu. E o que estes esperavam? Que cada espectador mandasse um e-mail que jamais seria lido para o palácio do Planalto? Que esperasse até as próximas eleições sem dar um pio, porque xingar e vaiar uma personificação, ao menos na opinião dos que a vaiaram, das mazelas do país, e não são poucas, é “falta de educação”? E o tradutor completou o soneto, já se abrindo mais ao príncipe: O PT não suporta o contraditório. Eles tem horror a tudo que não seja como eles querem. Quando eram oposição, de tudo faziam, e até suspeitos de assassinar um ex-prefeito eles são. Quando no poder, roubaram impunemente. Desviaram dinheiro, aparelharam o estado, ignoraram corrupções descaradas, tomaram decisões na “canetada” que prejudicaram milhões de pessoas. Ou seja, a vaia e o xingamento, legítimo direito de manifestação garantido por lei, é proibida no Brasil, caro príncipe. Roubar, corromper, lavar dinheiro e assassinar, faz parte.  Pode vir a acontecer. Mas não sejam mal educados de se manifestarem contra a presidente de República. Ai, ai, ai, que coisa feia! E ressaltou o silêncio ensurdecedor do PT depois das ameaças de morte ao Joaquim Barbosa, prisão de mensaleiros, assassinato do Celso Daniel, aperto de mãos com Collor, Maluf, e cia. e outros incontáveis exemplos.

Ele, o príncipe inglês, claramente absorto em pensamentos, perguntou ao tradutor: O senhor, se não estivesse trabalhando, teria vaiado e xingado a presidente? No que  Moacir, com um sorriso dos tempos de Marechal Hermes, respondeu: Eu vaiei e xinguei, baixinho, mas o fiz. E não me arrependo.





Vaias à Dilma, confusão de “Estados” e “Minha Casa Minha Vida”:




Vaias à Dilma, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, Rio de Janeiro – 2013 – Operários: 






Vaias à Dilma – Copa das Confederações – 2013:




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