O mundo precisa ser mais Clint Eastwood

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Nos últimos tempos, revi algumas obras de Clint Eastwood. O começo do reencontro foi com ˜Mystic River” (Sobre Meninos e Lobos), seguido por “Million Dollar Baby” (Menina de Ouro) e, por fim, “Gran Torino”.

Cada filme tem uma combinação rara e clara: roteiro impecável, atuação e escalação de elenco, idem e, claro, uma direção irreprensível. O sujeito, Clint, em Gran Torino, até compôs uma das músicas, salvo engano.

Nenhum filme é complexo de entender, ao contrário, mas que isso não seja interpretado como simplismo por parte de Eastwood — é o oposto.

Os mais profundos valores do Ocidente permeiam sua obra, sem, por qualquer milissegundo, soarem forçados, colocados como obrigação. Encaixam com perfeição, tal como uma música pede por uma determinada nota, em seu respectivo tempo.

Em “Gran Torino”, longe de disseminar quaisquer preconceitos, é a história oposta: a de um veterano de guerra que os vence, às duras penas, quando confrontado com a realidade, e não com ideologias teóricas. Existem ali a honra, a integridade, o choque cultural, o choque geracional, valores eternos e valores que não duram segundos. Por diversas vezes, o personagem principal, interpretado pelo próprio Clint, sequer fala: grunhe. Como um animal raivoso, sem sentimentos. Fechado em seus traumas e preconceitos. Mas, sem querer dar muito spoiler, a armadura vai cedendo — sem que o principal do personagem ceda. Sua alma, sua essência, está preservada, incólume.

As mesmas lutas internas, que parecem beber da inigualável e inesgotável fonte de Dostoiévski e outros gênios, mostra-se presente no “Million Dollar Baby”, no treinador durão que jamais aceitaria uma mulher sob seu comando — mas é ela, a menina caipira e esforçada, que o leva ao ápice do mundo do boxe: à disputa do cinturão. Quanto mais alto o voo, maior será…a queda. E caem juntos.

O treinador, com problemas com sua filha biológica, “adota” a boxeadora, presa em uma cama de hospital, atordoada pela ausência dos gritos da torcida, nocauteada, enfim, pela realidade injusta — pois a vida assim o é — que se impusera.
O conflito psicológico, teológico e moral que o diretor nos faz cúmplices é sublime.
Seria pecado, como alertara o padre no filme, imperdoável abreviar aquela sub-vida?
Ou pecado maior seria não fazer nada? Questões como esta, que encontram-se em seus filmes, são atemporais, estão em nossas mais profundas raízes enquanto sociedade. E o filme cuja sinopse tinha tudo para ser um filme qualquer da “Sessão da Tarde” vira um clássico, levando o Oscar à atriz — justo.

Ainda nas questões atemporais, profundas e que colocam o espectador numa situação desconfortável, no bom sentido, está o “Mystic River”( Sobre Meninos e Lobos), cujo elenco é invejável. Não há ali ator-atriz que não estivesse em seu ápice.
O final da obra, shakesperiano, nos faz espectadores de uma tragédia anunciada, nos traz a dor do pai, as dores e marcas do passado do menino que fora abusado anos atrás. Não há preto no branco, não há dicotomia. Há pura e complexa humanidade. Exposta visceralmente.

Clint Eastwood é um em um bilhão.
Das areias dos inesquecíveis e inigualáveis westerns, com a clássica cigarrilha no canto da boca, direção de Sérgio Leone e as mais magníficas músicas de Ennio Morricone (outro gênio) até o suprassumo da honestidade intelectual, artística e moral, que foi a realização de dois filmes sobre a segunda guerra, no ‘teatro’ do Pacífico. Até onde sei, o único que o fez.

Um filme, “Letters from Iwo Jima” (Cartas de Iwo Jima), mostrando o lado japonês do conflito; o outro, “Flags of our fathers” (A conquista da honra), retrata o ponto de vista americano.

Novamente, não há, neste caso, vilão e mocinho, país bom ou mau; há a mais pura complexidade humana, histórias de indivíduos, pais de família, noivos, filhos, netos, homens nobres, homens maus, há honra e ausência dela, há coragem e medo. Há vida. Complexa.

Se você ainda não deu a devida atenção a Clint Eastwood, aproveite. Não há nada melhor do que ser apresentado a um gênio.

Obs.: texto escrito na época da quarentena, e não publicado.