O comediante, o palhaço e o bobo-da-corte

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Parece uma daquelas histórias saídas de livros ou filmes de Hollywood: de um lado, um ex-oficial da KGB (atual FSB), que chegou ao poder pelas mãos do bonachão Boris Yeltsin, um senhorzinho que, se você viveu a década de 90, lembrará de vê-lo “volta e meia” mais “para lá, do que para cá”, em matéria de álcool. Desde então, o bobo-da-corte tem 22 anos de poder, até o momento. 22 anos da Era Putin.

Nestes 22 anos, por 4 anos o período Putin foi interrompido pelo camarada Dmitry Medvedev, algo como a Dilma (tentou…ao menos ela tentou, coitada. E nos fez rir…) faria com o Lula. Um pseudo-revezamento de poder. E sendo sincero: na Rússia, quem dava as cartas, todas, nunca deixou de ser o Putin. Ao contrário de Dilma, que ainda teve lá suas desavenças com o futuro-ex-condenado-candidato Luis Inácio.

Este ex-oficial, Putin, que mata opositores envenenados com elementos radioativos, levando a uma morte lenta, dolorosa e mais sofrida do que o mais frio serial-killer seria capaz, como fez com Alexander Litvinenko (você provavelmente viu a foto deste senhor careca, em Londres, num hospital), pois ele estava juntando os pontos que levaram à morte da jornalista Anna Politkovskaya, outra que Putin mandou matar como se fosse uma pulga que lhe causasse um ligeiro incômodo. E não para por aqui. Ele tentou fazer o mesmo com o ex-candidato à presidência da Ucrânia (do partido Comunista, inclusive), Victor Yushchenko, em 2004; com o opositor russo Alexei Navalny, em 2020. E minha ignorância sobre o tema impede o leitor de ter mais informações. Provavelmente, há mais casos.

Putin sabe, com razão, que não pagará por seus crimes.

A Europa Ocidental, preocupada com o politicamente correto, levando as redes sociais a sério como se vida real fosse, prestando contas a meia-dúzia no Twitter e dando as costas à população, não é párea para um psicopata como Putin. Enquanto Putin teve 20 anos para reforçar suas forças armadas, a Europa, além de tudo, tornava-se refém do gás russo. Desligaram as usinas nucleares, as usinas de carvão. A juventude, com seus belíssimos cartazes de #climatechange, precisava ter voz. Tiveram voz. Agora, falta poder de fogo.

No Leste, este psicopata cuja expressão facial não muda diante de um gol de Maradona ou de uma Claudia Cardinale, e seu renovado exército: os otimistas acreditam que ele vai parar na Ucrânia. Seria como acreditar que um serial-killer teria a nobreza e o ‘autocontrole’ de parar por ser o “moralmente correto”. Enganam-se, creio. E espero estar equivocado.

Hitler, não parou. Napoleão não parou. Alexandre, idem. “Eles” nunca param. O ego de um conquistador de territórios não pode ser medido por lógicas racionais de meros mortais como nós. Só Deus — ou seu arquirrival — sabe o que se passa naquela mente doentia.

Putin diz que quer desnazificar a Ucrânia. A União Soviética foi o país que mais baixas sofreu na WWII, depois, claro, de Stálin ter rompido a sadia amizade com o Führer alemão, que desde sempre via a Rússia como um “terreno” a ser ocupado por uma raça superior.

Este argumento, da ‘desnazificação’, só serve para propaganda de convertidos, mas mostra o perigo da banalização de tais adjetivos, o que acontece diariamente, há anos, nas redes sociais. Agora, no mundo real, uma palavra completamente louca se torna uma realidade mais louca ainda. E, no meio de tudo isso, milhões de inocentes.

O texto é longo, caro leitor, eu sei disso, mas o que importa, como disse meu Santo xará, em 1:5: “A luz brilha na escuridão, e a escuridão não conseguiu apagá-la”. E essa luz está na Ucrânia. Em seu presidente, eleito democraticamente.

Do lado de cá, este presidente não tem passado militar, não tem medalhas no peito, não tem fardas aprumadas pela esposa atenta, não tem foto com AK-47, nem andando sem camisa a cavalo, nem lutando com ursos, nem abraçado a tigres, e, infelizmente, não tem a OTAN. Este homem é desprovido, quando se olha logicamente para o conflito, de tudo o que seria pré-requisito para se enfrentar o mal que invadiu seu país. Mas ele, um ex-comediante, mostra o quão insignificantes são estas pompas, e estes castelos vultosos de Putin. O presidente da Ucrânia, em pleno 2022, no ápice do TikTok, Instagram, dos filtros e vídeos-fake, é real. É de carne e osso. E sua coragem, a de um “mero” comediante, torna-se gigantesca. Este pai de duas meninas mostra ao mundo que ainda há vida real, que ainda é possível visualizar, ver com nossos próprios olhos, o que é a coragem. De barba por fazer, uniforme imundo, Zelenskyy ensina ao Ocidente o que Churchill há décadas ensinou: é preciso ter coragem. No agir, e não no falar. Ele nos dá esperança na bravura do ‘homem comum’.

Zelenskyy não encara a morte iminente para ganhar likes no Instagram, nem para lacrar no TikTok. Ele o faz por seu povo, por sua família. Ele tem a coragem nos olhos daqueles que têm tudo a perder. E esta postura é uma prévia, um esboço, uma aula EAD, para o Ocidente, da mais pura bravura e compostura.

Ele, independentemente de seu passado, é um verdadeiro guerreiro, um verdadeiro líder, um verdadeiro general de 5 estrelas. Putin é apenas um covarde, um bobo da corte. Com suas medalhas e fardas inúteis.

Boa sorte ao comediante, todo azar do mundo às tropas invasoras do Bobo da Corte.

SLAVIA UKRANIA!

Ps: o ‘palhaço’ do título se referiria ao “rapaz-moleque” do MBL, mas o melhor jeito de lidar com aqueles áudios atrozes é justamente condená-los ao esquecimento. Quem faz piada com guerra e sofrimento alheio, não merece uma linha de seriedade.



Saiba mais sobre os mencionados no texto:
https://en.wikipedia.org/wiki/Poisoning_of_Alexander_Litvinenko

https://en.wikipedia.org/wiki/Anna_Politkovskaya

https://en.wikipedia.org/wiki/Dmitry_Medvedev

https://en.wikipedia.org/wiki/Poisoning_of_Alexei_Navalny