Não penso, logo ocupo

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“O Estado não pode dar educação, porque a educação derruba o Estado”; leio esta frase em um dos vários cartazes no meio das várias invasões pelo país afora, principalmente no Paraná. Surpreendentemente, sou obrigado a concordar com ela, especialmente no Brasil. Curiosamente, para dizer o mínimo, os mesmos que levantam estes dizeres são os maiores defensores do Estado obeso e intrometido em cada passo dos cidadãos. É uma obsessão pela vida alheia que vai do sal na mesa à restrição da venda de armas de fogo. Tal fetiche por controle faz com que eles, minoria ínfima da população, ditem o andar da carruagem do presente e futuro de incontáveis alunos. Tal mania não é de hoje: os socialistas, como dizia Frédéric Bastiat, em seu livro “A lei”, creem ter o domínio das boas intenções e virtudes: “Se desaprovamos o atual sistema de educação, os socialistas dizem que nos opomos a qualquer sistema de educação. […] Se desaprovamos o sistema de igualdade imposto pelo Estado, eles concluem que somos contra a igualdade. E assim por diante.” 

Em teoria, tais invasões são para protestar contra a PEC 241/55 (a que controlará os gastos do governo, e não reduzirá os investimentos em educação — leia este artigo da Renata Barreto para entender) e contra a reforma no ensino médio, iniciada, é bom lembrar, ainda no governo Dilma Rousseff:

www.youtube.com/watch?v=84FzyZZVE0s

Dilma, que cortou R$10,5 bi da educação sem protesto algum, tinha como slogan o “Brasil: Pátria educadora“; e seu ex-ministro da Educação, Cid Gomes, criador da frase professor deve trabalhar por amor, no início de 2015, alardeava o que o governo atual está propondo: “Na França, por exemplo, os alunos decidem se querem se aprofundar em matérias de humanas ou exatas. Eu pessoalmente defendo que seja oferecido aos estudantes de ensino médio um aprofundamento nas áreas que eles tenham interesse”. 

Para resumir, a reforma no ensino médio, mantida em grande parte pelo governo Temer, não é uma revolução no ensino brasileiro, mas — em tese — aplacaria os gravíssimos problemas de evasão escolar, e tentaria tirar a sala de aula de outro século, já que os alunos atuais são de uma geração absolutamente dinâmica e conectada.

Então, por que os adolescentes invadiriam as escolas? Para defender o ensino público brasileiro de alguma suposta ameaça, como os lunáticos que defendem um suposto ‘petróleo que é nosso’? Só se fossem muito ingênuos. Por motivos que todos conhecemos, o ensino brasileiro é uma vergonha, e não há como piorar. A luta política de partidos e organizações de esquerda pelas mentes dos mais novos dura décadas. E foi, infelizmente, muito bem sucedida e criou um legado:pessoas que não sabem escrever português corretamente, nem fazer as operações básicas de matemática, mas que possuem um alto ‘senso crítico‘. Este ‘senso crítico‘ não faz com que percebam o óbvio: estão sendo usadas como massa de manobra por pessoas que temem perder regalias, já que o PT saiu do governo federal (uma pesquisa de 5 minutos no FB, partindo de vídeos da página Mídia Ninja, que marca os realizadores das invasões e seus mestres, mostra que todos são ‘órfãos de Dilma’).

Não há, por parte dos mentores do movimento, preocupação com alunos, educação, notas melhores, ENEM e outros fatores realmente importantes para o Brasil. Há tão somente o ensinamento prático — e terrível — do velho ditado: “pouca farinha, meu pirão primeiro”, ou seja: controlem os gastos, desde que não sejam os meus. Há o cinismo máximo quando fingem não entender que sem dinheiro não há como o governo investir em nada, inclusive em educação.

Enquanto estes senhores do movimento brincavam de revolução, a realidade insistia em bater à porta dos colégios invadidos. Um jovem de 16 anos, com toda vida pela frente, foi esfaqueado e morto por outro invasor, após uma suposta discussão após consumo de drogas. Os movimentos de esquerda, liderados pelo que há de pior na política nacional, disseram que as mãos do governador do Paraná, Beto Richa, estavam sujas de sangue. Auto-crítica? Jamais. Não na esquerda. Admitir que o xadrez político tinha ido longe demais? Nem pensar. Culpa? Isso é coisa da burguesia. Já na Câmara Municipal de Guarulhos, também invadida, conheceríamos o sexo como forma de protesto — silencioso ou não — com um casal mantendo relações sexuais no plenário da casa.

Não só não pararam, mas continuaram com as invasões Brasil afora, com relatos de frases como democracia não é direito da maioria e o desrespeito com o direito básico de ir e vir dos alunos e professores que querem estudar, inclusive em muitas faculdades públicas pagas com os impostos de todos brasileiros, do mais rico ao mais pobre. E a prova maior do desrespeito com os estudantes foi a consequência: a não realização do ENEM nas áreas das escolas ocupadas, prejudicando 240 mil estudantes. Adivinhem quem vai custear toda esta operação de guerra para reaplicação das provas.

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Como estas pessoas sem a menor noção do que é educação querem tomar para si a dianteira do futuro do ensino brasileiro? Como estas marionetes de políticos e ideologias conseguem fingir que não atentam fatalmente contra o básico de qualquer ensino? Como esta minoria barulhenta e anti-democrática consegue decidir o futuro da maioria dos estudantes? Como os gênios que conseguem ser tão arrogantes a ponto de propagarem o #OcupaTudo ousam chamar aqueles que divergem deste modus operandi de fascistas?

Eles tem esta audácia, porque já dizia, em 1930, José Ortega y Gasset, no livro ‘A rebelião das massas’: “Democracia e lei, convivência legal, eram sinônimos. Hoje assistimos ao triunfo de uma ‘hiperdemocracia’ em que a massa atua diretamente sem lei; por meio de pressões materiais, impondo suas aspirações e seus gostos.

O Brasil é o império do ‘homem massa’. É o país onde os invasores ‘tranquilizam’ os pais promovendo “oficina de parkour”, “terapia do grito” e “capoeira” nas escolas invadidas. E tem quem ache tudo absolutamente normal.

A maior prova de que o Brasil precisa reformular seu de ensino é justamente esta facilidade com que a ignorância encontra terreno fértil para disseminar-se em todas camadas da população.

 

Bônus: a agenda de uma faculdade ocupada. 14915417_1819802518264751_8859372974217452278_n