George Floyd: honrem-no

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Mineápolis, no último dia 25, onde a temperatura média era de 18°C, George Floyd foi assassinado brutalmente  — pela primeira vez —  seu rosto esmagado contra o asfalto gelado. Derek Chauvin, observado por outros três policiais inertes, sufocou Floyd até a morte, com seu joelho por sobre o pescoço de um homem algemado, sob controle e imobilizado. Floyd repetia que não conseguia respirar e chegou a chamar por sua “mama”.

O assassinato brutal, filmado, levou a América às ruas. Num primeiro momento, o sentimento natural, instintivo, justificável, era de revolta, impotência, horror e ojeriza ao ato. Os EUA têm uma história própria e interna com o racismo  —  estúpido de minha parte seria tentar resumir, entender ou simular conhecimento sobre. Nos dias seguintes, dias em que George Floyd poderia ser reverenciado, lembrado, honrado, em atos pacíficos, em missas com louvores belíssimos (é difícil encontrar algo que mexa tanto com este que vos escreve como um hino cantado numa igreja protestante de uma comunidade negra americana). Mas, infelizmente, o que se viu foi o caos. Cidades em chamas. Negócios apedrejados. Outras vidas perdidas. Mais assassinatos. Mais perdas. Mais decadência. O triunfo do mal.

Em diversos vídeos na internet, donos de negócios, senhoras e senhores negros, chorando porque suas lojas foram destruídas. Como iriam, no “day after”, tirar seu sustento? O que isso tinha a ver com Floyd? Nas ruas, a violência imperava. Policiais viraram alvos. A generalização é, talvez, a maior demonstração de burrice de nós, seres humanos.

Nas redes, então, como sempre, os abutres, os urubus, os que encontram na tristeza e no caos o seu Jardim do Éden, não estavam de luto. Não estavam refletindo. Estavam vibrando. Lá, contra o presidente Trump. Contra os brancos. Contra o sistema. Contra tudo. E intimidando, virtualmente, todos a se posicionar. O piloto Lewis Hamilton o fez. Apontou o dedo na cara e exigiu posicionamentos. Silenciar, disseram, é ser cúmplice daqueles policiais. Não concordar com a minha exigência, agora, no meu momento, na minha percepção de urgência, é traição das mais graves. O que deveria ser uma reflexão natural e instintiva, foi destruída pela pressão artificial dos tempos de redes sociais onde só há o 8 ou o 80. Incorreram em erro, claro, os que foram pelo caminho oposto: para ser contra o vandalismo generalizado, começaram a ir para o lado extremo: o de tentarem defender o ato dos policiais que mataram Floyd, como se nosso cérebro fosse incapaz de trabalhar com uma 3a via.

O fenômeno de apontar o dedo e exigir posicionamento, gesto autoritário, agressivo e arrogante, foi importado por formadores de opinião aqui no Brasil. Pior do que o original, só a cópia.

O influenciador, especialista político, filósofo, embaixador de todas as causas nobres, Felipe Neto, caucasiano, e infelizmente meu companheiro de arquibancada de Botafogo, colocou o jogador Neymar, não caucasiano, contra a paredão dos tempos modernos: o Twitter. Enquanto ele, Neto, tinha sua urgência de falar sobre a morte de Floyd, genuína ou artificialmente, só sua consciência sabe, o jogador do PSG experimentava seu mais novo blazer rosa. Conseguiu uma resposta totalmente artificial de Neymar. Mais uma vez, sai o luto real, entra o lacre artificial. E fiquei me perguntando: na prática, quem vivenciou mais situações relacionadas ao racismo, às dificuldades da vida, ao convívio numa comunidade pobre, quem convive mais com negros, no momento: o influenciador ou o jogador?

Mas a vida real, em tempos de redes sociais, parece não importar. Viramos memes de nós mesmos.

Ainda por estas bandas, um comediante brasileiro brilhante cedeu, aposto que com a melhor das intenções, suas redes para uma filosofa negra, best-seller, para “refletirmos juntos”, “aprendermos juntos” etc. Novamente, um erro, a meu ver, pois distancia o fato original, o assassinato de Floyd, das consequências. O cidadão normal, dos tempos atuais, acostumado a escolher entre extremos começa a ficar de saco cheio, começa a achar que tudo não passa de lacração, de birra, de exagero. E aí o que acontece? O tema real, gravíssimo, torna-se “frescura”. A morte física de Floyd passa a ser coadjuvante, pois há a percepção de que o lacre está acima do sofrimento real. Do luto verdadeiro. Da vontade de saber quem foi George Floyd. Ele gostava do que? Torcia para quem? Pescava? Caçava? Tocava algum instrumento? Quais eram suas características mais íntimas, mais pessoais, o que lhe tornava único sob os olhos de Deus, além da cor de sua pele?

Na América, ao menos, provavelmente os assassinos pagarão pelo que fizeram. Apenas como exemplo de comparação quando o assunto é impunidade: em Brasília, em 1997, “menores” queimaram o índio Galdino, lembram-se? Coincidentemente, nesta última semana, recebi informações (e espero que seja apenas uma fake news) de que um dos assassinos virou Policial Rodoviário Federal, e tem trabalhado normalmente, e outro está trabalhando para o TJ/BSB, o próprio tribunal que o condenou à época. Por serem menores na época do crime, é praticamente impossível descobrir se estes fatos são verdadeiros. Mas não duvido que o sejam. Nossas leis permitiriam tamanha barbaridade.

Mas preciso voltar ao principal: George Floyd foi morto pela primeira vez no dia 25 de maio. Na sequência, infelizmente, foi desumanizado novamente, por dois tipos de pessoas: algumas muito bem intencionadas, mas ansiosas e sem capacidade de reflexão; e por outras mal-intencionadas, cujas únicas preocupações com ele eram a de ganhar fama e mais seguidores.

Não deixem as redes sociais lhe desumanizarem. Honrem George Floyd. No dia-a-dia, quando não houver testemunhas (Mateus 6:1-4). Honrem o milagre de cada vida humana presenteada por Deus. E jamais minimizem a morte de quem quer que seja por política, pois isso seria sucumbir às trevas de nossos corações.

Nós temos a obrigação e a capacidade de sermos melhores do que isso.