Fosse o Brasil um país normal…

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Fosse o Brasil um país normal, um pacote anti-crime não encontraria tamanha resistência — hashtag. Fosse este enorme pedaço de terra uma nação desenvolvida, Paulo Guedes teria sido levado a sério ainda em 1989. Fosse o Brasil uma terra de sãos, Rodrigo Maia, cujo apelido humilha o meu Glorioso, não teria a audácia que tem. Mas tem. Tem, pois sabe que pode ter — por enquanto.

Maia também sabe que, por mais que finja o oposto, precisará encontrar o caminho do diálogo com Bolsonaro. O presidente, por mais ojeriza que tenha de seus ex-colegas de Parlamento, e de seu presidente, também sabe que terá de tomar um chá com Maia, e disfarçar a cara de contragosto. Todos fazemos isso vez ou outra. Um Presidente da República tem de fazê-lo sempre. É do jogo. Do jogo limpo que todos querem.

A maioria dos eleitores de Bolsonaro sabe que ele terá de colocar um pouco dos pés no gramado, para fazer aquele gol que salvará o Brasil do Rebaixamento para a Série D. Este gol chama-se Reforma da Previdência. Sem ela, o Brasil deixaria o The Walking Dead parecendo o Jardim do Éden. Sem ela, na minha opinião, as melhores pautas conservadoras morrerão em textos não empoeirados do Facebook.

Bolsonaro e Rodrigo Maia estão, ainda que por um breve momento, condenados um ao outro. Remam juntos, quase algemados, numa jangada furada em meio às ondas turbulentas do Pacífico. Se entreolham, se xingam, se detestam, às vezes, mas não seriam suicidas a ponto de jogar o outro aos tubarões.

Precisam respeitar o pacto que está subentendido: sem a Reforma da Previdência, Bolsonaro pode não entrar para a História. Mais: deixaria uma avenida asfaltada para o retorno triunfal da esquerda ao poder. Com a Reforma, Maia pode conseguir algum resquício de lugar ao sol que não seja um banho de uma hora por dia num presídio Federal — a conferir.

Na semana passada, perplexo, vi uma série de torcedores do Apocalipse achando que ambos não se acertariam, já prevendo até o fim deste governo. Um governo de direita tem 3 meses de tolerância. Meses. 3 meses, para qualquer novo governo, seria pouco; para um que chegou ao poder sendo contra o toma lá, dá cá, então, era o esperado. Quando quem estava no poder fazia parte da patota esquerdista, 13 anos era apenas o começo. E as metralhadoras giratórias da imprensa, necessárias em toda democracia, claro, demoraram a cuspir fogo no Pai dos Pobres e na Gerentona Empoderada. Hoje, os canos derretem de tanto tiro de precisão e ódio direcionados ao alvo presidencial. É do jogo. Ele aprenderá a se defender melhor, assim espero.

Mas volto onde comecei: Maia e Jair. A tentação de jogar o outro ao mar deve ser das maiores. Mas chegaram, ambos, longe demais. Como Orfeu, estão próximos de voltarem ao lar com suas amadas para uma vida de quase-alegria. Como a mitologia os ensina, recomenda-se que não duvidem, parem, e acabem olhando para trás…