Conheça os envolvidos em apenas uma das diversas delações da Odebrecht

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Em documento sigiloso obtido pela revista ISTOÉ, na última sexta (9), com mais de 80 páginas, ficam expostos os envolvidos na delação do ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht, Claudio Melo Filho, que entrou na empresa em 1989, como estagiário.

Sua função, segundo suas próprias palavras, era manter por perto Congressistas corruptos para benefício único e exclusivo da empresa e dos próprios políticos, ignorando completamente as necessidades do país. Tal manutenção dos políticos que faziam parte do jogo começava já na época das campanhas, quando ajudavam as cartas marcadas a se elegerem. Depois de eleitos, cumpriam o combinado e contratavam a Odebrecht para obras Brasil afora.

Mesmo com a coligação PT-PMDB tendo dominado o governo federal por 13 anos, seria ingenuidade supor que o PSDB e outros partidos que contavam com governos estaduais não faziam parte da máfia.

Segundo Claudio, quem sempre lhe abria as portas no Senado era Romero Jucá, então líder do governo na Casa, que representava seu grupo, o mesmo de Renan Calheiros, Eunício de Oliveira e outros membros do PMDB. Era Jucá o ‘homem de frente’ e o responsável pela arrecadação deste grupo peemedebista, o mais forte dentro do partido. O delator deixa claro que Renan Calheiros e Jucá eram uma só cabeça, ou seja: cúmplices.

Na Câmara dos Deputados, o grupo forte do PMDB era liderado por Michel Temer — aquele que o PT finge que não sabia que tinha um cargo chave em seu governo –, Eliseu Padilha (Ministro-chefe da Casa Civil) e Moreira Franco (Ministro de Estado). Eliseu seria o arrecadador principal, seguido por Franco e, em 2014, o próprio Temer orquestrou pessoalmente um pedido de propina. Quem também é citado é Geddel Vieira Lima, o mesmo que pressionou outro ministro por conta de um apartamento privado na Bahia, o que viraria uma das maiores crises do atual governo.

O delator explica detalhadamente uma série de projetos de lei e medidas provisórias cujos propósitos eram somente seguir ordens da Odebrecht e beneficiar a empresa e os grupos corruptos de parlamentares.

Só em pagamentos para Jucá e seu grupo, Claudio afirma que o montante supera os R$22 milhões. A Renan Calheiros, com riqueza de detalhes, explica como o próprio afirmou a ele, no Senado, que Jucá falava pelo grupo; o delator explica que Renan pediu ajuda da Odebrecht para a campanha de seu filho, atual governador de Alagoas, Renan Filho, que acabou levando, no total, R$1.7 milhões.

Geddel Vieira Lima, em 2010, teria recebido entre R$1 e R$1,5 milhões, quando concorria ao governo da Bahia.

No anexo 4.1 da delação, há um relato assombroso sobre o homem escolhido pelo PT para ser vice-presidente da República, Michel Temer:

No Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República, estavam Eliseu Padilha, Carlos Melo Filho, Marcelo Odebrecht e Temer. No jantar, Marcelo e Temer chegaram a um valor: R$10 milhões. R$4 milhões foram para Eliseu Padilha, que definiria o rumo do valor depois, como por exemplo parte que foi para Eduardo Cunha, e R$6 milhões ao Paulo Skaff.

Há uma passagem simbólica do documento, que narra um suposto lobby que teria sido feito por Michel Temer a pedido da Odebrecht em Portugal, onde a empresa tinha negócios. É o exemplo cristalino do capitalismo de comadres em ação. Todos ganham, exceto quem deveria: o povo.

O leitor deve já estar cansado, mas é hora de lhes apresentar o Caranguejo, codinome da Odebrecht para Eduardo Cunha. O Caranguejo, em 2010, conseguiu R$7 milhões, supostamente para ‘campanha eleitoral’. Ainda no embalo dos codinomes, somos apresentados ao Polo, mais conhecido como Jaques Wagner: Polo levou, em 2006, candidato ao governo da Bahia, R$3 milhões, mesmo com Marcelo Odebrecht achando que ele não teria muitas chances. Wagner, no total, além destes R$3 milhões, receberia ainda R$4 milhões, entre 2006 e 2011.

Nesta parte da delação, Carlos conta algo sobre o Partido dos Trabalhadores. O estado da Bahia, sob comando de Jaques Wagner, devia à empresa R$290 milhões (o valor total primário era de R$390 mi, mas o mínimo a pagar era R$290 mi); o que foi combinado entre a Odebrecht e o PT é que destes R$290 milhões, R$30 milhões iriam direto para o PT em 2014 e eleições futuras na Bahia. Rui Costa, então secretário da Casa Civil, receberia R$10 milhões depois quando foi candidato ao governo da Bahia. O próprio Jaques Wagner receberia de presente dois relógios: um no valor de US$20 mil e outro no de US$4 mil.

Aprovação do PRS 72/2010 no Senado

A Odebrecht, como já relatado, pagava para que parlamentares lutassem por seus interesses no Congresso. Foi o que ocorreu no caso do Projeto de Resolução do Senado 72, no ano de 2010, assunto que ficou conhecido como ”Guerra dos Portos” e tratava das dificuldades que a indústria brasileira passava com os incentivos de importação, quando o governo federal do PT, sob ordem de Guido Mantega, encaminhou Romero Jucá para ajudar a empresa, que acabou pagando aos parlamentares: R$4 milhões a Jucá e seu grupo e R$500 mil a Delcídio do Amaral, codinome ‘Ferrari’.

 

Pagamentos pela MP 613/2013

Na ocasião desta medida provisória, os parlamentares envolvidos e seus ganhos:

Romero Jucá/Renan Calheiros (‘Justiça’) – R$4 milhões
Eunício Oliveira (‘Índio’) – R$2,1 milhões
Rodrigo Maia (‘Botafogo’) – R$100 mil
Lúcio Vieira Lima (‘Bitelo’) – entre R$1 e R$1,5 milhão

Anderson Dornelles – ligado diretamente à Dilma Rousseff

Em 2012, Marcelo Odebrecht reuniu-se com Anderson, que tinha trânsito livre com Dilma, pois era responsável por sua agenda de trabalho, e lá foi combinado o primeiro valor que Anderson receberia: R$50 mil. O total da ‘ajuda’ foi de R$350 mil, conforme detalhado na planilha da Odebrecht para ‘Las Vegas’, codinome de Dornelles.

Gim Argello, o ‘Campari’

Recebeu R$1,5 mi. em 2010. Em 2014, receberia R$1,3 mi.

Senador Ciro Nogueira, vulgo ‘Cerrado’ ou ‘Piqui’

Recebeu R$300 mil em 2010. Em 2014, R$1,3 mi.

Senador José Agripino, vulgo ‘Pino’ ou ‘Gripado’

A pedido de Aécio Neves, segundo Marcelo Odebrecht, foi autorizado o pagamento de R$1 milhão, em 2014, para José Agripino, como forma de apoio ao DEM.

Deputado Federal Inaldo Leitão, vulgo ‘Todo Feio’ 

Recebeu, em 2010, R$100 mil.

Deputado Federal Duarte Nogueira, vulgo ‘Corredor’

Em 2010, recebeu R$350 mil.

Deputado Federal Marco Maia, codinome ‘Gremista’

Levou, em 2014, R$1,3 mi.

Deputado Federal Antônio Brito, codinome ‘Misericórdia’

Em 2010 e 2014, recebeu R$230 mil

Deputado Federal Arthur Maia, vulgo ‘Tuca’

Em 2010, recebeu R$250 mil. Em 2014, mais R$350 mil.

Outros parlamentes e respectivos valores, nos anos de 2010 e 2014:
Carlinhos Almeida – R$50 mil
Flavio Dolabella – R$45 mil
Paes Landim (‘Decrépito’)- R$180 mil
Heráclito Fortes (‘Boca Mole’) – R$250 mil
Arthur Virgílio (‘Kimono’) – R$300 mil
José Carlos Aleleuia (‘Missa) – R$580 mil
Colbert Martins (‘Médico) – R$591 mil
Adolfo Viana (‘Jovem’) – R$50 mil
Lídice da Mata (‘Feia’) – R$200 mil
Daniel Almeida (‘Comuna’) – R$100 mil
Paulo Magalhães Junior (‘Goleiro’) – R$50 mil
Hugo Napoleão (‘Diplomata’) – R$200 mil
Jutahy Magalhães (‘Moleza’) – R$850 mil
Francisco Dornelles (‘Velhinho’) – R$200 mil
Antônio Imbassahy – R$299 mil
Bênito Gama – R$30 mil
Claudio Cajado – R$305 mil
Leur Lomanto Júnior – R$250 mil
Lucio Vieira de Lima – R$400 mil
Orlando Silva – R$100 mil
Paulo Henrique Lustosa – R$100 mil
Robério Negreiros – R$50 mil

É narrado, ainda, pelo delator um episódio onde Kátia Abreu lhe telefonou e disse que precisava de ‘ajuda’. O delator afirma que passou a informação a Marcelo Odebrecht que, na sua opinião, teria ‘resolvido o assunto’.

Se este é o relato de apenas um ex-diretor da Odebrecht, os leitores podem imaginar o que será com a delação de todos executivos da empresa e do próprio Marcelo Odebrecht. E existem os que querem fazer acreditar que toda a operação Lava-Jato é para prejudicar o Brasil e o PT. Ou são muito idiotas ou muito canalhas.

Baixa a delação completa AQUI.