Caminhante da História

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por: Alexandre Karamazov

É comum dizer que achamos que nascemos na época errada, que seríamos mais felizes em determinado século, década, país, feudo, império, planeta. Eu tenho certeza. A certeza termina aí.  Quando? Qual século, década, lugar…Aonde eu preferiria estar para sempre? Como de forma genial Woody Allen escancara, debocha de si e de todos nós, no filme “Meia Noite em Paris”, gostaria de ter vivido “outras vidas”, ou melhor, todas vidas. Fã e discípulo confesso de Raul Seixas, me recordo da música “Eu nasci há 10.000 anos atrás”: “Eu vi Cristo ser crucificado, o amor nascer e ser assassinado…’’; “eu vi o sangue que corria da montanha, quando Hitler chamou toda Alemanha”, e chego à conclusão: Um andarilho da história. Sim, isso é o que eu gostaria de ser. De primeira gostaria de estar jogando poker num saloon, no velho Oeste americano, com uma arma a tiracolo, tomando um whisky cowboy, fumando um cigarro (sem avisos e fotos de futuros problemas), sendo um homem procurado em uns dias ou um xerife incorruptível em outros. Em ambos os casos, seria uma honra ter a trilha do Ennio Morricone e a companhia do Clint Eastwood. Até contrair uma doença venérea num bordel poeirento seria feito. Do calor, suor e poeira dos cenários de filme do Sérgio Leone, pularia para a Sibéria, século XIX, precisamente na mesma cela de um tal Fiódor. Fiódor Dostoiévski, mas eu chamaria o então rapaz de “companheiro”; nestas circunstâncias, reza a lenda, ele só tinha a Bíblia para ler, o único livro para o ‘Senhor dos Livros’. Uma bela obra, geralmente interpretada por pessoas que não devem ter tirado boas notas em interpretação de texto, mas que com certeza tiraram 10 em matemática financeira. Leria para ele o trecho 3 do Eclesiastes, muito grande para ser reproduzido aqui, mas que graças aos binóculos atuais – Google – vale a procura e leitura completa.
“Já dizia o Eclesiastes há 10.000 anos atrás, por baixo do sol não há nada novo, não seja bobo meu rapaz” cantava Seixas, Raul no último álbum antes do moço do disco voador levá-lo, para onde quer que tenha sido.
 
Roma antiga, Grécia antiga, Egito antigo. Esses três lugares, pelas belezas, culturas, as armaduras e estratégias de batalha, sangue até morrer, literalmente, e principalmente pelas orgias regadas a muito vinho, seriam destinos que eu daria uma longa parada.Comparar o senado romano com o brasileiro, conversar sobre “War” com Julio César (certamente ele gostaria da carta dos 24 territórios); fazer perguntas e obtê-las em dobro ao sábio Aristóteles numa praça grega qualquer; ver o esplendor do império egípcio, finalmente tirar da cabeça se as pirâmides são ou não coisas de ET’s! Maldito “Eram os deuses astronautas?”, que deixou todo mundo paranoico com isso; tentar um flerte com a tal Cleopátra, se bonita fosse. O History Channel diz que sim, o Discovery diz que não…Só vendo.
Ver, ou melhor, ouvir o pequeno Wolfgang Amadeus, vulgo Mozart, brincando no piano.
Me assustar com o destino batendo à porta na 9ª sinfonia do Ludwig, botar a pólvora nos canhões de Tchaikóvski; uma noite em Liverpool iria ao “Cavern Club” ver 4 rapazes levando seu som; ainda na Inglaterra veria The Who, Led Zeppelin, Eric Clapton, Jimi Hendrix, Pink Floyd, Stones e por fim Oasis já em 90. Antes disso teria ido à beira do Mississipi, testemunhar a dor, a tristeza, o lamento conseguindo se transformar em música. O nascimento do Blues. Robert Johnson na encruzilhada com o capeta. Cada bend na guitarra, um suspiro ou grito de dor que viria a ser colocado para fora. No mesmo país teria, sem pressa alguma, visto o rock and roll nascer e também ser crucificado. Enquanto Elvis lá em cima e os Beatles lá na terra da rainha faziam seu trabalho, o vizinho do consulado americano na Bahia, Raul Santos Seixas começava a desconfiar de verdade absoluta, na biblioteca de seu pai.
Teria subido com Moisés na montanha e feito umas 5000 perguntas a Deus, e teria avisado o que fariam em seu nome ao longo da história. Não sei, talvez ele escrevesse uma pedra com 100 mandamentos, emendas, parágrafos, etc. Se lá em cima descobrisse que ele não existe, e que Moisés estava esquizofrênico, aí teria feito em voz alta o triplo de perguntas, a quem eu não sei. Talvez ao ‘moço do disco voador’.
Independentemente do roteiro, minha caminhada teria um último Ato. Eu o chamaria de “Ato 7”, mesmo que fosse o centésimo. Ver o Sr. Manuel F. Dos Santos, com a camisa alvinegra do Glorioso Botafogo, deixando mais um ‘João’ no chão do Maracanã, e em General Severiano pediria uma foto ao deus do futebol: Garrincha. 
 
Essa caminhada seria muito maior, mais bem planejada, mas o que realmente tenho certeza é que nasci em 1987, o país e o mundo continuam um poço de alienação, corrupção, manipulação e essas pragas todas. Claro, um poço de pessoas também, todas cada vez mais parecidas, mais padronizadas, mal sabia Roger Waters o tanto de tijolos na imensa parede da ignorância que continuariam a ser feitos. Pessimismo ou saudosismo enganoso? Jamais irei saber…
Ou me entupo de Rivotril e fico sonhando com outras épocas e personagens, sem fazer nada ou faço o impossível para mudar nossa época. Infelizmente não consigo optar por um ou outro, então me dou o direito de fazer os dois. Com Rivotril, saudosismo do que jamais vivi, uma guitarra na mão, filmes no hd, livros na estante, quem vos escreve segue adiante, afinal, “no hay camino, se hace camino al andar”.

 

Fácil? Jamais. A vida não é fácil, pra quem tem uma cabeça difícil. 
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