Brasil: um país em pausa

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Imagine um filme que mostra o começo com um misterioso assassino, e esse assassino passa despercebido por todos e atinge uma posição proeminente na sociedade, e a história continua até que o mesmo é desmascarado e nós, espectadores, vemos o desfecho que é a punição do personagem.

Voltando a realidade brasileira, o filme de terror protagonizado pelo PT está pausado. O desfecho não vem. A maior parte dos crimes cometidos na calada da noite foram expostos; o que antes poderia parecer intriga da oposição civil, porque a oposição oficial inexistia, já é fato. E no entanto Dilma continua aí. O PT continua aí. Esperamos que os vilões sejam punidos. E o Brasil está pausado. Com exceção da Lava Jato, mas cujo movimento parece não contagiar a reação pelo país afora. E neste vácuo de existência, um pedaço do Brasil que não tem voz continua a sofrer. E esse sofrimento é ignorado por todos que apoiam o estado do Estado atual.

Além da propaganda oficial, onde tudo são flores, os intelectuais do Baixo Gávea, parlamentares comunistas, artistas Rouanet e similares pintam um cenário de tranquilidade e combate ao ‘golpismo’, em um país paralelo. Eles habitam outro mundo. Mundo de muito dinheiro e pouca turbulência.

O que incomoda, além do apoio aberto à República lotada de cupins, é ver que a crise tem nomes, CPF’s, histórias reais por trás dela, e esses bajuladores, auto-intitulados donos da virtude, não ligam. É a mãe solteira que tem sua renda diminuída, além de ser devorada pela inflação, e essa mesma mãe não tem um centavo sobrando no fim do mês, enquanto os bajuladores da corte tem contas na Suíça e consultoria  para definir o melhor investimento. É o filósofo economista da Unicamp, com um livro de algum economista da moda, explicando que 2+2 nem sempre são 4, e que é válido o Brasil experimentar algumas coisas na economia. É o estudante que tem de abandonar os estudos para ajudar a família a pagar as contas, enquanto os filhos de todos os bandoleiros da República estão com a vida ganha.

A crise é real e a imprensa fica consultando “especialistas” para saber se a pedalada da Dilma em Dezembro de 2013 se aplica na legislação vigente, e abrem aspas para Toffoli e Lewandowski demonstrarem o quanto são isentos, e os colunistas que se consideram gênios inigualáveis continuam escrevendo sobre o quanto são geniais e inigualáveis, e suas ideias para as melhorias do país que só não é perfeito por conta da elite fascista indignada porque pobre anda de avião.

A realidade mostra um juiz cumprindo com seu dever e sendo demonizado, direta e indiretamente, por toda sorte de capachos do governo. Inclusive na imprensa. A realidade mostra um país tão aparelhado, tão atrasado, tão aquém do seu potencial, que 200 milhões de pessoas ficam esperando na estação para ver se o trem do PT vai ficar ou partir. E ainda que a estação esteja apinhada de gente querendo que ele parta, umas centenas tem a força política e ‘institucional’ para mantê-lo ali, causando a tragédia na vida do cidadão comum.

E o cidadão comum, o mesmo que nem texto complexo no Facebook tem tempo para fazer, é bombardeado com a desinformação do governo. O governo que lhe rouba oficialmente, com os impostos, e extra-oficialmente, com a corrupção, jura de pés juntos que é o governo que cuida dos pobres, mas os lucros dos bancos são bilionários; é o governo que finge não entender o quão mal faz a inflação na vida de quem vive com pouco dinheiro; é o governo que finge que o dólar alto só atrapalha a burguesia que quer fazer selfie com o Mickey em Orlando; é o governo que finge que nunca antes se investigou tanto quanto agora, mas faz o diabo, como nas eleições, para impedir a PF e a Justiça de trabalhar; é o governo que se preocupa com um ditador cubano envelhecido num barril de Chivas Regal, e que está pouco se lixando para o próprio país. A crise é prática, e os bobos de corte são mestres em um eterno blá blá blá teórico de quinta categoria.

Não há país que aguente ficar pausado por tanto tempo. Como cantava Raul Seixas: “tem que acontecer alguma coisa neném, parado é que eu não posso ficar…”