Até quando, STF? Até quando?

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(Dou um aparte em minha busca pessoal pelo homônimo do pagodeiro, o Belo, para comentar sobre o que houve, ontem, no Brasil).

Perdi a conta de quantos textos fiz sobre o quão mal o STF, como um todo ou na figura deste ou daquele ministro, fez ao país. Lembro na época do Mensalão, de ouvir, por ex., Lewandowski elogiando, quase emocionado, o Zé Genoíno. Que décadas atrás fora ao Araguaia, não com a intenção de abrir um eco-resort no local, salvo engano. O então ministro José Eduardo Cardozo era elogiado quase diariamente. Parecia que testemunhava uma reunião de amigos dando broncas em outros grandes camaradas, apenas por estarem em público, diante da TV, ao vivo. No fim do julgamento, na famosa dosimetria (definição do tamanho das penas dos condenados), não restavam dúvidas: as penas maiores ficaram para o tal núcleo publicitário, Marcos Valério (até hoje apodrece na prisão), que não faziam parte da panelinha dos gloriosos anos de “resistência” — enquanto o núcleo político se dera bem.


Corta.


Na cena do impeachment de Dilma, comandada pelo mesmo Lewandowski, como manda a Constituição, o douto ministro rasgou a própria e manteve os direitos políticos da ex-presidente. Quem disse algo contra, fora chamado, no ato, de radical. Dilma caiu, mas caiu politizando.


Corta.


No ano passado, já sob governo de “extrema-direita”, a maioria do STF se debruçou sobre a questão da prisão após 2a instância, então luta pessoal do ex-ministro Moro (sim, errei em ter feito defesa apaixonada e apressada do mesmo aqui neste FB, mas isso fica para outro texto). Todo um circo foi montado, supostamente para proteger cidadãos indefesos de serem presos sem poderem recorrer a todas instâncias judiciais, mas o picadeiro tinha um único alvo: Luis Inácio Lula da Silva. A maioria dos ministros, para dizer de forma educada, irresponsavelmente libertou Lula. Fingindo que o fazia pelo ‘coletivo anônimo’, pelo Zé da Esquina, dono do botequim. Um teatro. Um escárnio. Lula está livre. José Dirceu está livre. Cunha, “coitado”, preso.


Corta.


Defender amigos próximos, ou aqueles que admiramos, é fácil. O desafio, diria até um dos valores cristãos mais difíceis, é lutar e defender aqueles por quem você não simpatiza muito e nem conhece — meu caso pessoal com os que foram (parlamentares ou não) vítimas do Sr. Alexandre de Moraes, ontem. Não é a hora de pensar “eu não gosto do estilo de Beltrano”; “eu não simpatizo com a forma de Sicrano”. Tampouco é ocasião para transformar o ato de ontem num julgamento indireto do mandato de Bolsonaro. Isso vai muito além do atual presidente. E imaginem o que poderá ser feito, sob um novo presidente de esquerda, num futuro não tão distante, se este ato passar como “natural”. É hora de reconhecer a gravidade aviltante do que o ministro fez ontem. Falam tanto, mas tanto, aqui no Brasil dos “tempos de chumbo”, mas quando algo verdadeiramente obscuro, saído das trevas, acontece, há muito silêncio. Ontem, foram seus “inimigos”, foram os “caras que passam pano pro Bozonaro”; os “fascistas”. Amanhã, meus caros, pode ser qualquer um.


Quando se entra nos pormenores das notícias, tudo fica ainda mais claramente fantasioso: Fulano, dono da Smartfit (não o conheço, mas sua criação é genial, do ponto de vista comercial), mandou Whatsapp num grupo para impulsionar vídeos pró-reforma X, em época Y. Nos tempos atuais, isso é comum não só no meio politicocomo por parte de um dono de uma lanchonete que queira patrocinar o seu negócio. Se não há dinheiro público no meio, é questão de opinião pessoal e ponto final.
Ou subitamente o país se esqueceu das incontáveis manifestações relâmpago de CUT, PSOL e similares? Em 24 horas, os profissionais das manifestações estão com bandeiras, carros de som, adesivos, balões, câmeras, redes sociais, tudo milimetricamente orquestrado para defender seus ideais. É provável que combinem, hoje em dia, por Whatsapp. É possível, até, que usem dinheiro do fundo partidário (outro escárnio, mas sigamos…), mas não há ilegalidade nisso. Eu não quero que prendam 20 militantes — famosos ou não — que se falam por Whatsapp, para se reunir para perguntar/pressionar “Quem matou Marielle?”. Realmente, não quero. Discordo frontalmente de todo ideário de esquerda, mas defendo que o sujeito seja livre, desde que com dinheiro privado, para fazer manifestação pelos direitos do boto-cor-de-rosa se pintar de azul. O problema é que há direcionamento. Ou não há sites de fake news de esquerda? E de centro? Há fake news diariamente até na mídia tradicional. Às vezes, por descuido. Às vezes por má intenção.


O mundo atual, do ponto de vista filosófico, quando se pensa nas redes sociais/noticiário político, é um convite ao ódio e ao engano, pois acabamos quase sempre como vítimas do 8 ou 80, transitamos entre o preto e o branco, e quem ousa ponderar, refletir, não optar por um lado ou outro é chamado de isentão, comunista, fascista etc. Ou seja: é um cenário altamente complexo, muito acima desta simplicidade que o ministro fingiu não entender. Outro ponto, com base na realidade, seria o ministro ou o STF dizer: se ficar provado que há, de fato, o tal gabinete do ódio, e que este é sustentado por dinheiro público, que se puna todos. Ok. Agora, perseguir, humilhar, julgar, apenas porque determinados cidadãos são conservadores e apoiadores do atual presidente, é criminoso. Legal e moralmente.


O Sr. Alexandre de Moraes, sozinho, parece querer provocar, como no poker, uma reação do adversário. Num momento de crise humanitária gravíssima, o ministro parece apostar alto e anseia pelo caos. O caos é o terreno ideal para os desprovidos de talento, integridade, moralidade, honradez e valores firmes.


O pleno do STF, hoje, se ainda tiver um milímetro de responsabilidade, de dever patriótico coletivo, deveria revogar as decisões unilaterais do ministro. Não feito isso, e o digo de forma leiga, quem vai parar o Sr. Alexandre de Moraes? Ou seria a reação “radical” exatamente o que o ministro busca, para se fazer de vítima e desestabilizar o país? A jogada é essa, ministro?Ou a tal independência dos poderes só vale para o Executivo? Porque, com todos seus grandes defeitos, até o Legislativo foi posto ali via voto. O STF, não. E justamente por isso deveriam ter a humildade, a nobreza de perceber que um sujeito togado não pode amordaçar 210 milhões de cidadãos — por enquanto — livres.