A bravura da normalidade

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Nestes últimos tempos, os bastidores do Brasil, quando vêm ao palco principal, em crimes como o caso dos meninos do Flamengo e Brumadinho, assustam. A impunidade mata no presente e no futuro, sem Minority Report e Tom Cruise para impedir. Comentários doentios chocam — quase — como os fatos em si: no caso do time carioca, cheguei a ler que os meninos estavam jogados em containers por serem negros. Tal afirmação é de uma crueldade inflamável, de tão absurda.

A resistência feroz não para nos comentários em redes sociais: basta ver a dos parlamentares, que demonstraram repulsa ao primeiro pacote anti-crime de Sérgio Moro, há uns 10 dias, provando uma vez mais que o anormal travestiu-se de rotineiro, cotidiano, por estas bandas. A coletiva de imprensa no momento da apresentação do ministro foi exemplo cristalino do que tento descrever por aqui: jornalistas horrorizados com propostas óbvias. Hoje, novamente: ao aceitar a transferência de Marcola e outros líderes de facções para presídios federais de segurança máxima, Sérgio Moro tem de ler matérias induzindo o leitor a acreditar que tal manobra seria pior para o país, assumindo, covardemente, que deveríamos nos ajoelhar diante destes mega-criminosos. Quase uma invocação de hashtag: #aceitação.

A normalidade precisa ser reestabelecida com uma mudança radical na cultura do brasileiro (um filósofo que a imprensa diariamente fala para não levar a sério o diz há muito tempo, com razão). Este atual governo tem ainda o peso de começar a tentar fazê-lo em escala nacional — jamais sendo ingênuo de achar que resolverá tudo em 4 anos.

Torço para que o presidente retorne ao comando do país com disposição para aplacar os egos de seu entorno, e a sabedoria para perceber quando ceder e quando endurecer nos momentos gravíssimos que se avizinham. Realmente torço.

Que ele se inspire na bravura não conformista da corajosa Leiliane, que conseguiu retirar o motorista da Scania atingida pelo helicóptero que levava Ricardo Boechat, em São Paulo, enquanto outros filmavam a cena como se espectadores fossem de um filme aterrorizante no cinema; bem como a coragem e determinação da professora Heley, que em 2017 morreu para salvar 25 crianças de um incêndio numa escola em Janaúba, Minas Gerais.

Custará, mas é preciso acreditar que, um dia, o 2+2 voltará a ser igual a 4 neste país.